Aniversário e Natal – Coisas Distintas!

Um dia, a pretexto de sei lá o quê, o assunto chegou em aniversário e eu falei pro Xisto que ele fazia aniversário no mesmo dia que o meu filho. O que se seguiu foi uma dessas ocasiões em que, num filme hollywoodyano, ocorre a revelação da principal mensagem enquanto conteúdo edificante. Ele colocou a mão no meu ombro e disse, solenemente:

– Nunca dê a ele um único presente dizendo que é de aniversário e natal! – E mais não disse, nem haveria o que ser dito. A “cena” poderia ter sido num pico do Himalaia, se não tivesse sido na porta de um velório, mas eu não só entendi o recado, como me lembrei, tempos depois, que meu pai fez isso comigo!

Ele me ligou num dia 22 ou 23 de dezembro, completamente bebaço, falando que ia me pegar em casa pra me levar ao shopping escolher o meu presente. Fez questão de deixar claro: O QUE EU QUISESSE! Era um só presente, mas eu poderia escolher qualquer coisa! Quem conhece o meu pai, sabe de sua lendária sovinice e de sua exagerada expansão dos conceitos de supérfluo, o que englobava, claro, presentes de natal. E é mais do que óbvio que uma criança de 10 anos, num universo pré vídeo-game, só poderia escolher uma coisa como presente máximo: uma bicicleta! E foi o que eu escolhi, uma berlineta vermelha, da Calói! Eu nem acreditava! Foda é que, refeito do porre, entrou numas de devolver, meu avô intercedeu e ele, puto da vida, decretou: “Fica como presente de Natal e aniversário!”.

Meu aniversário é em maio…

Bom, o meu pai foi de suma importância na formação do meu caráter e intelectualidade, mas tem um sem número de exemplos de como não agir, que pretendo seguir a risca! Outro dia mesmo, disseram que o Renato Gaúcho não costuma gostar de jogador indisciplinado, e eu na hora disse que não gostaria que o Duda fosse um filho como eu fui. Ano passado, fizemos a festa de aniversário dele num buffet, a coisa mais pequeno-burguesa que eu consigo me imaginar fazendo. E foi do caralho! A descoberta do universo do Peter Pan foi algo fundamental para o Duda, ele realmente embarcou na viagem da coisa! Não tirou a roupinha hora nenhuma, brincou de espadas com os amiguinhos, curtiu o seu dia! E parecia nítido que ele sabia, que ele tinha consciência que era o SEU dia!

Eu não tive festas de aniversário. Não essas assim, ou mesmo as que a minha tia, com muito menos recursos financeiros, fazia pros meus primos. Ontem, o Duda teve a festinha que eu sempre quis. Pra mim. E descobri que é mais gostoso quando é pro nosso filho! Tento não entrar numas de entender porque isso nunca bateu assim com o meu pai e muito provavelmente tem a ver com o fato de eu ter sido filho de um casal que não rolou. Talvez. Mas nem está importando muito. Porque o que as festinhas do Duda representam pra ele servem para que eu me entenda com o meu passado, cuja pedra já tá zerada há bastante tempo. Tem uma coisa muito legal nessas festinhas do Duda pra 50 pessoas, no máximo: gosto de todo mundo que está ali. Família pequena, os bons amigos com seus filhos, adoro ver meu filho com os filhos dos meus amigos, penso na hora no meu pai e no Robertinho e num tempo que ficou… dos meus grandes amigos, falta o Giba, que já me avisou que em festa de criança, eu devo convidá-lo na de 10 anos em diante. E assim se faz, com meus amigos eu tenho essa liberdade de lidar na maior transparência.

Eu nunca vou esquecer o pós do ano passado, quando, pegando carona num verso genial do Marcelo Montenegro, jogamos a festinha na banguela, prolongando a gasolina daquela alegria toda e fizemos um “Caça ao Tesouro”, escondendo os presentes pela casa e fazendo ele encontrar através de pistas! A família toda participando, os padrinhos sensacionais que ele tem, uma tia avó que é tão avó como se deve ser, foi delicioso ver a reação dele! Na hora em que ele achou a bicicleta, parecia filme! Ele não falou nada, subiu em cima e saiu pedalando! Parou no meio, desceu, e ficou pulando no lugar, comemorando! Pra depois, sair pedalando de novo! Bicicleta, mais um clichê, mas um belíssimo clichê, presentaço do Dindo! Ele passou o dia às voltas com os seus presentes, quis dormir com a camiseta do Darth Vader, depois trocou pela do Che Guevara (e eu me sentindo responsável pelo meu filho receber esse tipo de presente-ícone), e antes de dormir, perguntou pelos “amigos”, que queria brincar com todos eles de novo!

E aí, eu me lembrei do sábio ensinamento do Xisto, que me fez cometer pequenos estelionatos com a Laura: separamos alguns presentes do aniversário, mais os “daqui de casa” que foram “de aniversário e natal”, pra dar só no natal! E já vejo o meu filho curtindo um outro tipo de situação que eu não curti muito bem, e sei que esse negócio de ficar se realizando através do filho não é um caminho dos mais saudáveis, mas eu sei a hora de parar… acho que sei.

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4 Anos do Duda!

Foi numa quarta, em dezembro, entre os dias 19 e 20. Saí pra trabalhar como faço desde os… sei lá, houveram interrupções e tale coisa, mas faz tempo que eu trabalho, embora maurícios-bostas criados a leite com pêra questionem a legitimidade do meu emprego de Mega-Clerk na Locadora de vídeo-games do Rock and Roll, eu acho que existe um abismo de diferença entre trampar e pedir dinheiro pra mãe.

Mas eu fui trabalhar, almocei em casa, ia deixar o carro com a Laura pra ela ir na última consulta de rotina com a ginecologista, mas caiu um verdadeiro pé d’água, achei melhor que ela fosse de táxi. Era uma consulta só pra confirmar a cesárea pra sexta-feira, mas por volta das três, ela me ligou:

– Randall, vou pro hospital.
– Você ainda não foi?
– Pra maternidade, Randall!!!!!
– Pra quê?
– A médica mandou, disse que o líquido tá baixo…
– O Duda vai nascer?

O Duda ia nascer! Ela me avisou que não dava nem pra passar em casa e pegar a bagagem da maternidade, que ia direto pro Santa Joana e que eu precisaria ir pra casa – RÁPIDO -, pegar as coisas e ir pra maternidade – RÁPIDO. Começou a me dar uma paúra, um não saber o que fazer, tava chovendo, tinha uma 23 de Maio pela frente, puta medo de ficar no trânsito e ouvir pelo celular o parto do meu filho…

Cheguei em casa e liguei umas 6 vezes pra Laura a fim de confirmar que não tinha esquecido nada. Demorei mais tempo escolhendo quais livros levar, peguei 5. Já disse aqui que meu pai levou 17 livros pra Lua de Mel dele com a minha mãe, mas vamos combinar que são propósitos diferentes, certo? E eu não sabia quanto tempo ao certo passaríamos lá, enfim, 5 livros me pareceu uma quantia razoável. Para fins de registro, levei um livro pra minha Lua de Mel. Comprei mais um na livraria do aeroporto. Ok, aqui entre nós, tinha mais um pocket escondido.

A 23 de Maio estava livre, incrível! Chovia a garoa da terra onde meu filho nasceria, um paulistano entre um goiano e uma sorocabana, ôrra meu! Fui falando no telefone com o pessoal de Goiânia e avisando que o meu Grohmann-Bonetti-Ferreira estava chegando, essa mistura de alemão com italiano e irlandês e português ora pois, tocou o telefone e era uma advogada com quem vinha tentando fechar um contrato complexo e tinha prazo até às… 16 horas daquele dia!

– Danielle (o Dra foi pras cucuias, não sei como não falei um Dani!), desculpa mas eu tou no trânsito, tou indo pra maternidade, meu filho vai nascer agora!!!!
– Que bárbaro, Dr. Randall, mas aproveitando, eu precisava fechar com o senhor a Cláusula Quarta do nosso contrato, pra gente conseguir finalizar isso antes das festas…
– Manda a minuta pro meu e-mail, por favor? Eu analiso e te respondo com “ok”, ficou do jeito que a gente conversou?

Cheguei no hospital e perguntei pela Laura na Recepção. A moça me deu a chave do quarto, mas não tinha ninguém. Pânico! Será que entrou em trabalho de parto? Onde é a zona de parto, algo assim? O celular dela – pra variar – sem sinal, o que provavelmente era um sinal de que ela estaria… encontro minha sogra do lado de fora do hospital, fumando, cânticos de louvor à indústria do tabaco, cadê a Laura?

Tava numa salinha de espera, tranquila, esperando pra passar por uma triagem ultra burocrática e chata pra caralho:

– Profissão?
– Fisioterapeuta.
– Escritor.
– RANDALL????
– Advogado…

Não sei porque algumas pessoas acham que é mais vantajoso se apresentar como advogado do que como escritor. Me separei dela de novo, que foi pra tal da zona de parto, ser preparada, enquanto eu fui pro quarto. Liguei o computador, não tinha sinal de rede wi fi, bosta, preciso analisar a Cláusula Quarta do contrato tal, liguei na empresa, pedi prum bróder ler a Cláusula pra mim, pedi pra ele responder com um “ok” e, conforme o horário que o Duda nascesse, ia na empresa no dia seguinte pra finalizar essa porra. Não sei o que o Sr. Gekko acha da Licença Paternidade, mas quem aluga o cu não escolhe hora de cagar, enfim, acho que estava tudo resolvido. Era pra eu esperar no quarto até me chamarem no serviço de alto falante.

Achei que seria uma boa idéia tomar um banho. E fazer a barba. Tirar o cavanhaque. Bom esse chuveiro… minha sogra entrou no quarto, a porta estava destrancada mas graças aos bons fados eu já estava vestido.

– Estão te chamando, Randall!

Eram 5 e meia da tarde! E mais burocracia, eu tinha que pegar um papel lá embaixo, pagar uma taxa pra ter o direito de assistir ao parto, carimbos, assinaturas, meu filho vai nascer, caralho, anda logo com isso, uma mulher com uma sombra verde limão tava na porta, não dava pra olhar pra outro lugar além dos olhos de contornos cítricos dela, tudo certo, coloquei umas roupinhas ridículas, touquinha, e fui pro quarto. A Laura estava tranquila, tomando uma gelatina. Linda! Eu não me lembro de ter visto a Laura tão linda, tão serena, aquela mulher estava prestes a ser mãe e eu era o pai. Tinha um negócio pregado na barriga dela que fazia um barulhão, era o coraçãozinho do meu filho. O coração dele, onde tinha um troço chamado golf ball que me tirara umas boas noites de sono, mas que me falaram que “não era nada”, mas que pra ter certeza que não era nada, só depois que nascesse. Nasce logo, filhão, e manda essa bola de golf pra longe. Golfe e tênis são esportes de coxinhas, quando você crescer eu te dou uma bola de verdade, daquelas que a gente sente um indescritível prazer um chutá-la pra mais longe, depois de subir nos ombros dos ídolos e dos medos!

Sem “Melodrama Blues”, vai nascer quando? Dilatação, depende disso. 6 da tarde, meu filho vai nascer dia 19, um dia antes do aniversário do Padrin, o Rock and Roll! Dilatou? Não. Mas vai nascer hoje? Foi o que a médica falou, mas temos que esperar… felizmente, ninguém fez a piada “quem já esperou nove meses”… quer dizer, acho que alguém fez essa piada sim, mas não prestei muita atenção. E ficamos esperando.

Sem celular, pode entrar com celular? Pode. E com livro? “Pode também, só não pode ficar entrando e saindo, vai lá no quarto, pega tudo o que você tem que pegar de uma só vez e volta.” Salve Simpatia, Dona Sombra Verde, vou lá no quarto pegar tudo e volto. Minha sogra tava na lanchonete, avisou que a minha cunhada, madrinha do Duda, estava vindo. Legal! Que horas vai nascer? Boa pergunta.

Oito, oito e meia, nove… FOME. Seria ético dizer que eu tava com fome pra alguém que vai ter que ficar em jejum sabe Deus por quanto tempo? E que a qualquer momento pode estar sujeita às famigeradas contrações? Pelo que vi em filmes, a perspectiva não era muito animadora; pelo que a Laura é em condições normais de temperatura e pressão, poderia tirar uma base do que estava por vir, mas aparentemente, dava pra amarrar a pessoa. Nove e meia, muita fome, “vai comer alguma coisa, mas volta logo?”.

Fui lá enfrentar a Sombra Verde e sensibilizá-la quanto ao meu estado de necessidade, fome pra cacete, ela liberou mas aparentemente curtiu essa oportunidade de exercer o poder sobre a possibilidade de alguém se alimentar ou não. A Flávia já tinha chegado, o Padrinho do Duda também, e o primeiro comentário que ele fez foi que ia entrando num lugar que não podia e uma mulher com uma sombra verde berrante o barrou. Estávamos eu, a vó e os padrinhos do meu filho.

Um misto quente e uma coca zero, meu filho vai nascer a qualquer momento, voltei logo e levei um Sonho de Valsa pra Sombra Verde. Um sorriso e ela perguntou se é menino ou menina, como vai chamar, e contou que o filho dela também nasceu de madrugada. De madrugada? Como assim? Quase onze horas, contração zero, a perspectiva é essa, então? 11 e pouco, agora espera, Duda, espera pra nascer dia 20, o dia do Rock and Roll!

A fome passou, agora era o sono. E nada de contrações, nem dilatação, como é que faz? E se mandarem a gente pra casa, alarme falso, volta aí na sexta, tale coisa? Não, ainda bem que não, disseram que já iam chamar a médica da Laura, ela está a caminho, o anestesista já chegou, cochilei na cadeira, dormi profundamente, acordei com a médica na frente da luz, um vulto, vamos pra sala de cirurgia?

Nova preparação, o sono desapareceu e agora era só o medo. Tá tudo bem? Tudo ótimo. Outra preparação, entrei na sala e a Laura tava acordadona:

– Eu ainda tou sentindo as minhas pernas.
– Que bom, eu não anestesiei suas pernas, você sabe por onde seu filho vai sair?

Cheiro de carne queimada, mexe daqui, mexe dali, todo mundo diz que é comum o pai desmaiar, não sou propriamente um poço de resistência, vai demorar muito? Uma cara de susto da médica, levanto da cadeira, o quê que foi? “Seu filho é grandão”, foi a resposta dela, mas depois ela disse que o cordão tava enrolado na cabeça dele, como uma coroinha, o que não é grave, fuça daqui, fuça dali, fuça, fuça, fuça, pega um troço de ferro, “prepara a câmera aí, cara, seu filho tá saindo”, meu filho! Ela puxou pela cabeça e o pescocinho dele deu uma esticada, deu medo pra caralho, vai pro colo da pediatra, vem pro meu colo, puta merda, é a boca da Laura, é o meu filho!!!!! Roxo, cheio de meleca, com os olhos fechados parecendo o Mr Magoo, meu filho é a coisa mais linda do mundo!

– Tou com sono…
– Será que é efeito da anestesia?
– Quase 3 da matina, véio, ela tá em trabalho de parto desde às 5, é óbvio que ela vai sentir sono!

Voltei pro quarto e, como que por milagre, pintou um sinal de wi fi, postei o nascimento oficial do Eduardo Grohmann Bonetti Ferreira, às 15 pras 3 da manhã do dia 20 de dezembro de 2007, o Dia do Rock and Roll! abri meus e-mails e a advogada disse que estava tudo certo quanto à Cláusula Quarta, iria imprimir, colher assinatura e mandar pra empresa. A Advogada da Nova Zelândia também tinha me mandado um e-mail, tínhamos uma questão pendente, aproveitei e falei que meu filho tinha nascido “in this very moment”. A Laura veio pro quarto e eu nunca me esqueço do que ela disse:

– Eu tou com saudade DELE…

Como é que vai ser daqui pra frente? Não sei… quer dizer, hoje eu já sei, mas o medo que eu senti na sala de parto nem se compara ao meu medo quando desci de mala e cuia pro estacionamento do hospital, pra levar meu filho e minha mulher pra CASA. Dirigir com o Duda no carro, nesse trânsito caótico de São Paulo, na Maternidade era tudo tão fácil, tantos médicos e enfermeiros e lacaios em geral, como que vai ser em casa, e se ele…

Foram férias inesquecíveis! Penso que a Laura não deve sentir muita saudade daquele período em que ficou um verdadeiro bagaço, dava dó de vê-la acordando pra amamentar, se arrastar até a poltrona, e voltar pra cama. Nunca vou esquecer de ficar embalando o Duda no bebê conforto com a Flávia até as 3 da manhã, hora de mais uma mamada e quando eu ia dormir. A vida girava em torno do Duda, do xixi, do cocô, do umbigo, do leite, os remédios, chás, fraldas, fraldas e mais fraldas…

Quatro anos depois, mudou pouca coisa, mas a vida voltou ao normal. Quer dizer, a vida nunca mais será a mesma, não tenho a menor dúvida que o Duda foi a melhor coisa que me aconteceu, e é difícil acreditar que já se passou um ano.

Por quê eu escrevi esse texto cheio de informação e que interessa nada a ninguém? Porque em cada momento daquele, eu ficava pensando se conseguiria realmente lembrar de cada pequeno detalhe daquele dia, e acho que quase consegui. Não sei se vou seguir lembrando nos próximos anos, por isso, registrei aqui, para a… digamos… posteridade.

Faz um tempão que eu sou Pai e em fevereiro eu vou ser DE NOVO! Até lá, Feliz Aniversário, Duda, obrigado por tudo o que você é!


Igual Bode na Horta…

Essa expressão faz mais sentido na minha terra, quando se diz que alguém apanhou “igual bode na horta”. Tá difícil compreender o sentido? Ok, um bode entra na horta e começa a comer tudo, como você tira o animal de lá? Pedindo por favor? Não, infelizmente. É preciso bater, bater e bater até ele ficar mole e você arrastar o bicho de lá. Sei que nesses dias de indignação Yorkshire não é muito conveniente usar esse tipo de exemplo, é que foi mais ou menos assim que o Santos apanhou do Barcelona hoje, de maneira covarde e vergonhosa.

O Santos perdeu antes da bola rolar, em 2 momentos:

1- O temor reverencial! Se alguém já assistiu o documentário “Todos os Corações do Mundo” (Filme oficial da Copa de 94), deve ter se lembrado de uma imagem marcante, quando os times estão perfilados no túnel pra entrar em campo e o Baggio encara fixamente o Romário. Que não está nem aí, nem olha pros lados, enquanto o italiano escancara preocupação + admiração + sei lá quantos sentimentos semelhantes. Pois o Neymar fez de forma idêntica com o Messi, só que o olhar era de paixão. Em português claro e na gíria, “pagou pau”! Aliás, se teve algo que o Neymar fez nessa final foi isso, pagou pau do começo ao fim! Quando perguntado sobre o Puyol, disse que era fã dele desde que jogava vídeo game, e que gostaria de fazer troca-troca de camisa ao final do jogo…

Eu me lembro do Jubs de 97, uma cena lamentável que me marcou: num dia deu certo e eu fui ver o nosso jogo de handebol contra São Paulo, que era a base da Seleção Brasileira. Quer dizer, era a Seleção Brasileira. Claro que iríamos perder, mas antes do jogo, os caras iam tirar foto com os adversários!!!  Isso é um absurdo, um time tem que chegar na cancha odiando o seu adversário, não querendo autógrafo! E o Neymar, que deveria ser uma espécie de líder do time, liderou nessa palhaçada de querer chupar o pau dos catalães!

2- O Muricy ofereceu a cabeça do Durval numa bandeja de prata! Ao escalar o time com 3 zagueiros, o Muricy mandou o seguinte recado ao Barça: “podem vir, que eu estou me cagando todo de medo de vocês”! Nada justifica essa escalação bizarra, a não ser a vontade de entrar pra perder de pouco, e nem pra isso serviu, pois 4×0 não é pouco MESMO! E aí tem o Durval…

O Presidente do Santos é todo cheio de se gabar que é administrador e estrategista e responsável por ótimos planejamentos, daí que o cara planejou ser campeão com o Durval? Quer dizer, dependendo da sua proposta de jogo, até dá pra ter um Durval em campo, por exemplo, se você vai atacar pra cacete, como o Barcelona, que se dá ao luxo de ter Puyol, Piqué e Mascherano ali, 3 múmias, mas que não atrapalham nunca porque a bola quase nunca chega neles. Ou ainda, se o “entorno” do cabeça de bagre der uma ajuda, como era o caso do Breno quando jogava com Lugano e Miranda, com Josué e Mineiro à frente; ou o Corinthians que foi campeão com Batata na zaga, jogando ao lado do Gamarra e com Rincón e Vampeta cuidando da cabeça de área. Agora, se você conta com o Edu Dracena pra desempenhar jornada dupla, e só o Arouca no meio a se desvincular da proposta “Pura Magia/Jeito Moleque”, não dá pra ter o Durval!

Porque o Durval, coitado, vai entregar… como entregou os dois primeiros gols que causaram, de forma objetiva, a derrota! Sim, porque havia ainda a possibilidade do rame-rame do Barcelona ser só um rame-rame como era o do Crujff, e o Daniel Alves já tinha feito das suas dando um contra ataque que o Neymar enfiou na bunda, até que o Durval cometeu duas falhas grotescas e saíram os dois primeiros gols do Barcelona! Coitado do Durval, seria inevitável, pois ele é ruim. A questão é que, jogando como o Santos costuma jogar, contra Kashima e Mirasol, ninguém precisa se preocupar em se defender. Mas, se o Muricy queria tanto assim se defender, não poderia ter usado o Durval.

Porém, acima da falta de aptidão futebolística do becão do Peixe, acho que o que derrubou o time realmente foi a (falta de) ATITUDE do Santos. Claro, existem derrotas e derrotas, mas essa do Santos foi feia demais! Como disse o Helinho, faltou ali o cartão necessário, a chegada mais dura, uma demonstração, por mínima que fosse, que o time estava ali jogando uma final de Mundial! Ao ver a declaração do Neymar sobre o Puyol, me deu saudade do Garrincha dizendo que o Russo que o marcaria se chamava João! Mas pra não ficar só no Neymar, que tal lembrar que um tal de Ganso ainda existe? E que, infelizmente, parece trilhar o mesmo caminho do Reinaldo, aquele 9 do Atlético Mineiro, a quem não importava o que fazia, as pessoas só comentavam o que ele seria capaz de fazer se não tivesse perdido os meniscos tão novo… acho que o Ganso “micou”. Em termos de negócio, não tenho a menor dúvida, mas o jogador, o atleta, não sei o que vai ser dele. E também não sei se é só em função das lesões ou se o cara realmente “desacorçoou” com essa transferência que não deu certo, porque uma coisa é o Neymar, “dono” de Santos e viciado em pagode, ser celebridade e tudo, não querer ir embora do Brasil, coisa que qualquer outro jogador de futebol cogita. E agora, o Ganso já deve estar pensando que talvez seu futuro esteja no Málaga, no Albacete, no Lecce, Nantes, Rússia, Whereverquistão ou no Vitória de Guimarães, de onde sairá daqui uns dois anos para o “Mundo Árabe”.

E o Léo? Meu Deus, que desgraça! Antes do jogo, falei da Avenida Daniel Alves, mas o que eu vi no lado esquerdo da defesa do Santos foi um BOULEVARD, um local de passeio, o lateral do Barça, que independentemente da camisa que esteja usando, parece estar sempre de abadá, deitou e rolou por ali, sem misericórdia! Sem falar que esse energúmeno ainda saiu falando coisas do tipo “Vamos ver se esse Barcelona é isso tudo”, sério, o Léo! Triste, muito triste…

Não dá pra não falar do Neymar, que simplesmente amarelou, pipocou feio mesmo! Não fez absolutamente nada o jogo inteiro, e aí eu fico pensando que é fácil comemorar gol de forma pseudo estilosa, socando o ar de baixo pra cima e inflando a bochecha pra soprar forte quando o adversário é o Kashima Reysol ou o Grêmio Itinerante de Guaratinguetá D’oeste. E quando a parada é a vera, jogo de homem? Manda dizer que não tá, como o Alexotan costumava fazer… e ao final do jogo, nenhuma ponta de sofrimento, nenhuma tristeza, nada! Parecia que tinha chegado ao fim o seu passeio no Hopi Hari, não uma batalha pelo título Mundial! Aula de futebol? Como disse o Tiago Gomes no comentário do texto anterior: pra acontecer uma aula, tem que ter aluno, e onde estava? Preocupado em trocar camisa com o Puyol e bajular o Messi, tal como o Robinho no final do jogo em 2006 pulando no pescoço do Zidane. Aliás, acho que foi essa desgraça desse Robinho que inventou essa coisa horrível de “alegria/jeito moleque” que só faz mal ao futebol. Jeito Moleque? Futebol é jogo de HOMEM!

Homem entra em campo pra fazer o seu trabalho, moleque entra em campo pra brincar de bola, e nunca esteve tão claro quem é homem e quem é moleque como no jogo de ontem! De um lado, gente séria, competente, ciosa do seu dever a cumprir. Do outro, molecagem, descompromisso, palhaçada! O Santos deveria ser proibido, pelos próximos 5 anos, de pisar num torneio mundial de Clubes, pois foi a maior surra que um time levou! Lembrem-se que nem o MAZEMBE perdeu tão feio quanto o Santos perdeu, e isso não é uma aula, e sim, uma LIÇÃO a ser aprendida, Sr. Muricy: quem mexe com moleque, amanhece mijado.

Claro que do outro lado existe um time quase imbatível, cujo grande craque, um dos maiores da história em todos os tempos, quase dando um recado ao Neymar, limita-se apenas e tão somente a JOGAR FUTEBOL. Não usa cabelo de idiota, não comemora com dancinha, não se enche de brinco, corrente e outros penduricalhos, só entra em campo e joga. E joga pra caralho! E nunca se esconde, não cai com qualquer encostãozinho, não provoca, não enche o saco, não faz balaca pra derrubar técnico, nada! Joga futebol e só! E é muito! Fora isso, o time que já contava com gente do quilate de Xavi e Iniesta pra ajudar, ainda inclui o Cesc Fábregas, cansado de carregar o Arsenal nas costas, joga leve, multiplica-se em campo e faz a gente se esquecer do resto, seja Pedro, Villa, Thiago ou Legião. O Barcelona é Messi, Xavi, Iniesta, Fábregas e o resto! Aliás, o Durval poderia muito bem ser titular desse time do Barcelona e ainda assim, seria campeão do mundo!

Existem derrotas e derrotas. Uma coisa é perder como em 82, outra bem diferente é perder como em 2006. E uma outra, ainda pior, é perder como o Santos em 2011, que entra pra perder de pouco e nem isso consegue! O pior é ter que ouvir gente idiota dizendo que o problema é o tal futebol arte, pois não adianta nada jogar bonito e perder, mas me diz uma coisa: isso o que o Santos fez no domingo é bonito? Arte? Acabou 2011, e o Santos que era o time mais lindo do Brasil, termina o ano com um “passa moleque” daqueles! Que sirva pra alguma coisa!


Eu Acredito no Santos, Acredito, Acredito!

Sim, se você assistiu Peter Pan, sabe de onde veio a frase, e eu acho apropriado, porque o Neymar é quase uma fada. Não no aspecto de sua figura melíflua, mas no sentido de realizar desejos e coisas do gênero. Porém, quando eu digo isso, a mágica da interpretação canhestra de texto enxerga como se eu estivesse dizendo que o Santos é favorito. O que não é, esse papel cabe e caberá por muito tempo, ao Barcelona, não importa qual campeonato esteja em disputa. Mas que o Santos tem chance, tem, e muita!

Quer saber no quê eu me baseio pra dizer isso? Apenas e tão somente nos fatos, nada mais. Eis os fatos:

1- Esse mesmo Barcelona perdeu para o Inter em 2006. Ok, não era ESSE Barcelona, mas era um Super Barcelona, correto? Ok, tudo bem, vamos considerar que o Barcelona atual seja muito melhor que o de 2006, mas será que o Santos não é ainda mais superior que o Inter?

2- Se o Barcelona de 2006 estava longe de ser ESSE Barcelona, o que dizer do de 2009? Podemos dizer que é MUITO parecido? Pois é, vocês lembram que aquele/esse Barcelona suou sangue pra vencer o Estudiantes na prorrogação? E que o gol de empate saiu no finalzinho? Podemos concordar que o Santos é muitas e muitas vezes melhor que aquela bosta de time que o Estudiantes tinha?

3- O Barcelona de 92, do Crujff, também era favorito. E ficava tocando a bola pra lá e pra cá, tanto que, em certo momento, comentei com o pessoal que via o jogo comigo, que se tirasse o time do São Paulo de campo, ia demorar uns 10 minutos pro Barcelona perceber. E o São Paulo em 92, ao contrário do Inter em 2006 e do Estudiantes em 2009, mandou no jogo! E botou o Barcelona no bolso…

4- Quando foi a última vez que um time ENCAROU o Barcelona? Você não se lembra? Eu lembro: foi o Arsenal, em Londres, no início do ano, Oitavas de Final da Champions, primeiro jogo. Mesmo sabendo que o Barcelona era melhor e dos riscos que correria, encarou de frente e venceu de virada, gols de Van Persie e Arshavin, o melhor jogo que eu vi esse ano! E com todo o respeito, o time do Santos é bem melhor que o do Arsenal!

5- Depois do Messi, o Neymar é o melhor jogador do mundo na atualidade. E o Barcelona ainda não encarou um time que tem o Neymar. Não, eu não acho que eles irão descuidar da marcação, soberba tem limite e o Guardiola não é burro, porém, não custa lembrar que a faixa onde o Neymar joga é a Avenida Daniel Alves, e isso é mais que um bom presságio. Tanto que não deve ter sido de graça que o Daniel Alves foi sacado do time.

6- Falam sobre a zaga do Santos e realmente não é a melhor que existe no Brasil, mas o Barcelona tem Mascherano e Puyol! Sem falar no Pique, lento e cintura dura, a despeito de namorar a Shakira.

Enfim, acho que vai dar Santos. Que não é favorito, mas tem condições de ganhar. Esse jogo, em campo neutro, e em circunstância sui generis. Acho que vai pra cima, pelo menos Neymar e Ganso, sem falar no Borges que tem uma aura de Nunes e eu acho que vai deixar dois. O que eu acho mesmo é que vai ser um jogão, e espero que o meu pai, onde quer que esteja, possa ver o seu Santos em campo mais uma vez!


A Lei da Palmada

Lei da Palmada… é dessas coisas em que só pelo fato do Bolsonaro ser contra, você meio que tem que ser a favor. Mas ainda tenho algo a dizer sobre o assunto.

O que eu penso é o seguinte: é errado. Bater em criança é errado e eu gostaria de poder dizer aqui, pra vocês, que nunca bati no Duda. Estaria mentindo. Mas é um esforço diário pra não incorrer nessa tentação. Todas as vezes em que eu bati nele (uma delas, com certo exagero, pela reincidência da falta dele), o fiz com a plena certeza que tava fazendo algo errado.

Do ponto de vista legal, infelizmente, não dá pra ter ponderação. Não dá pra fazer uma lei onde se depreenda que só um tapinha pode, vários tapinhas não. E um tapão? Tem que proibir. E analisa-se a falta “no varejo”. É a minha opinião. A Lei é pra todo mundo, quem tem capacidade interpretativa e quem não tem. E acho que a maioria, por uma série de razões, não tem.

Sendo assim, sou a favor da Lei. Porque criança que apanha muito, tende a ser um adulto violento. Se homem, é quase certo que vai espancar a mulher. Cria um comportamento, um padrão, extremamente nocivo. E se esse tipo de proibição gerar uma diminuição nos índices de violência doméstica, já terá valido a pena. Sem falar que surra não é o único método disponível de educação.

Personalizando: fui uma criança que foi bastante espancada. Minha mãe, por razões que ela um dia deverá se entender com a sua consciência, me batia demais. E de formas humilhantes, como de cinto na frente de todo mundo, ou muitos e muitos tapas na cara. Que eu me lembre, provavelmente fiz por merecer as reprimendas, não na intensidade com que foram cometidas. E nunca na cara. Os vários tapas que eu levei na cara nunca serão esquecidos, infelizmente.

Por isso, e talvez exatamente por isso, a minha opinião não conte muito a respeito da validade da Lei da Palmada, mas eu gostaria que ela existisse e fiquei feliz com o fato do projeto ter sido aprovado no Congresso. Na verdade, gostaria que ela já existisse nos meus 6, 7, 8, 9 anos… gostaria que a minha mãe soubesse que aquilo que ela fazia comigo era um crime e que ela haveria de pagar por aquilo.


Parece Que Foi Ontem…

Esse foi o tipo de coisa que eu mais li/escutei quando alguém se referia ao título mundial do Flamengo, conquistado há exatos 30 anos! E o pior é que parece mesmo… parece que foi ontem que o meu Coroa me acordou à meia noite, lá na casa da minha vó, onde sacrossantamente se dormia depois da novela, pra ver um jogo de futebol. O menino de 8 anos ainda não entendia porque estava de noite e no jogo do Flamengo era de dia. Mas o pai falou alguma coisa sobre fuso horário e ele acreditou. Da mesma forma que ele acreditou quando, alguns dias atrás, mesmo com a torcida da Anapolina comemorando no gramado do Serra Dourada, que o campeão era o Goiás!

Claro que eu era Flamengo, naquela Goiânia do início dos Anos 80, mas a verdadeira pergunta é: QUEM NÃO ERA FLAMENGO? Na minha rua, todos eram. Todos, sem exceção. E todos nós fomos ao Serra Dourada ver o Flamengo jogar contra o Atlético – MG no jogo extra da Libertadores, jogo que não terminou porque os jogadores do Galo preferiram dar voadoras e outras porradas ao invés de jogar bola. Mas se serve de consolo, o meu amigo Christian que, à míngua de títulos, costuma dizer que o Galo é o único vice invicto e o time que mais vezes ficou em quarto lugar, pode dizer que o Galo foi o único time que não perdeu pro Flamengo naquela campanha avassaladora!

Que teve um 6×0 em cima do Botafogo no meio, teve um título carioca conquistado com a famosa ajuda do Ladrilheiro contra o Vasco, teve a batalha campal de Santiago e a deliciosa vingança do Nobre Anselmo sobre o facínora do Mário Soto! Nunca vou me esquecer o camisa 11 deles (Puebla, se não me engano), pisando no meio da coxa do Júnior! Mas lembrar disso é ser injusto com as verdadeiras memórias que Júnior e Leandro devem invocar, os melhores laterais de todos os tempos! Se eu começo a falar de Júnior e Leandro com o Helinho, o assunto vai até “umas hora”…

E a meiúca? A Santíssima Trindade de Andrade-Adílio-e-Zico, ditos assim, como se fossem um só, tal como Bauer-Rui-e-Noronha do São Paulo. Mas no caso do Flamengo, não podem ser um porque o Zico é grande demais! Maior que tudo, maior que o Flamengo! Fez gol na final de 80, fez TODOS os gols do Flamengo nas 3 partidas finais contra os celerados do Cobreloa, e algum vascaínopata talvez diga que ele não fez gol na Final do Mundial, mas deu os 3 magníficos passes para os 3 gols! Ah, o primeiro gol…

Nunes dá um calcanhar na lateral esquerda quase na linha do meio campo, de Mozer pro Zico que, rapidamente, lança ao ataque, pra quem? O próprio Nunes, que segundos atrás estava quase 30 metros distante de onde alcançou a bola para fuzilar o goleiro! Um amigo meu uma vez ousou escalar um Flamengo de Todos os Tempos com o Romário no lugar do Nunes, maior heresia que eu já vi! Nunes, o Artilheiro das Grandes Decisões!!!

Lendo o livro do Eduardo Monsanto, tomei um susto ao ver o carro que o Zico ganhou… que coisa horrorosa! E na época, era assustadoramente moderno, aquele Toyota – aliás, descobrir que a Toyota não fazia só jipes já foi assustador por si. Foi uma época maravilhosa pra ser criança, tendo um time que tinha o Zico, e que ganhou o mundo. Eu o Flamengo nunca mais nos reaproximamos, hoje em dia é um pouco como uma ex-namorada que foi legal, mas que embagulhou, pintou uma outra paixão, verdadeira, que não deixa espaço pra mais nada. Mas enquanto durou, foi bom demais ser Flamengo em Goiás.

E aqui, como fiz com Goiás, Palmeiras e Santos, os meus 10 Mais do Flamengo:

1- Zico

2- Raul

3- Andrade

4- Adílio

5- Leandro

6- Júnior

7- Nunes

8- Renato Gaúcho

9- Zinho

10- Petkovic


A Frente Fria Que a Chuva Traz!

Quando eu assisti “A Frente Fria Que a Chuva Traz”, a peça cumpriu todas as minhas expectativas, apesar de tudo o que “Homens, Santos e Desertores” representa pra mim, no âmbito pessoal. É, ficou meio truncado e meio nada a ver, é que são duas peças do Mário Bortolotto e acho que queria dizer que gosto mais de uma que de outra, ou…

Tem um resíduo pessoal ali naquele palco, vendo os playbas se divertindo numa laje da perifa só porque algum caderninho de cultura falou que esse é o novo hype do momento. Aqueles playbas orbitaram a minha vida, nos tais “melhores colégios de Goiânia” onde estudei, e na extensão disso tudo, quando se é Classe Média numa capital provinciana como Goiânia. “Não nasci em berço de ouro, mas tive um berço”, diz o Marcelo Rubens Paiva e isso resume um pouco da minha história “do lado de cá dos trilhos”, pequeno-burguês bem nascido, tale coisa.

Mais tarde, um pouquinho depois da adolescência as portas dos “um por andar” dos pais dos Playbas se abriram pra mim. A porta da cozinha, por onde eu e o Pescoço entrávamos com a aparelhagem de som dele, que era o DJ e eu o seu Roadie Sancho Pança (menos pança na época). Não raro ouvíamos um “olha que bonitinho, os dois são netos do Seu Randall E TRABALHAM!”, uma coisa Oscar Wilde no cerrado goiano.

E por sermos, dentre outras coisas, “netos do Seu Randall” (só sendo de Goiânia pra entender), gozávamos de uma espécie de prestígio, fazíamos parte do que poderia se chamar a ala VIP da criadagem, e mais de uma vez atraimos olhares nobres para a estrebaria, e chegamos a namorar mocinhas da high, ou pseudo-high, na falta de uma high legítima, mas whatever, tudo igualmente escroto. Eram aquelas Patys e Playbas da “Frente Fria”, por Paty e Playba entenda “Pessoas Que Gastam o Dinheiro dos Pais em Despesas de Caráter Voluptuário”.

Peça boa pra se fazer um mea culpa, viu? “Ah, eu não sou como eles (Patys e Playbas) não”! Eu sei que não, imagina, mas o quão distante VOCÊ está deles? O quanto você realmente se diferencia DAQUILO? A quantas anda sua tolerância com os cretinos? Como você reage quando alguém na roda diz que “A Íris é 10, mas o Diego Alemão é show!”. Putz, cara, tem gente que não faz a mais puta idéia de quem seja Íris e Diego Alemão! Mas sabe quem é Nei Lisboa e Domingos de Oliveira. Que reconhece o Cesana como o “cara que fez Felizes Para Sempre”, não como “Aquele carinha da propaganda de Bis”. Que nunca comprou um CD do Chicelete com Banana, que nunca foi num show da Ivete Sangalo, que não compra Caras e Contigo nem CD de trilha de novela, gente que não vê novela, gente com substância, com quem eu posso trocar alguma coisa, inclusive umas palavras e algumas idéias, GENTE!

E eu que no mesmo dia estava lendo “O Professor de Letras” do Tchekhov, conto que termina assim: “Onde vim parar, meu Deus? Estou cercado de vulgaridade por todos os lados. Gente enfadonha, vazia, potes de cerâmica com creme azedo, jarras com leite, baratas, mulheres tolas… Não há nada mais medonho, mais ultrajante, mais deprimente que a vulgaridade. Fugir daqui, fugir hoje mesmo, senão vou ficar louco!”

Posso ter falado um monte de merda, e o que é pior, um monte de merda que nem tem nada a ver com a peça, usei a obra-prima do Mário como muleta pra soltar os meus demônios, mas desculpa aí, Dramaturgo, eu já fiz isso antes, quando peguei um avião pra Goiânia e fui me resolver com o coroa depois de ver “Homens, Santos e Desertores” e deu certo. Dessa vez eu não preciso me acertar com ninguém, talvez comigo mesmo, mas ainda não me decidi.

E tem o pagodeiro que fica indignado quando o chamam de pagodeiro – “SAMBA!!!! Eu faço SAMBA! Samba de raiz!” – que me lembra Sandy e Júnior: ele jura que vai fazer rock, ela agora canta Cole Porter no Bourbon Street. Não! Eles são sertanejos, filhos de sertanejos, são bregas, cafonas, escrotos! Deveriam se limitar a cantar “Maria Chiquinha” e, quando muito, versão em português de música bundalelê. Mas não, vai lá no Bourbon Street (Meu Deus, que sacrilégio com o nome, Rua sagrada onde eu pus esses pés que a terra há de comer) no dia em que ela estiver se apresentando a 150 paus per capita, vai estar lotado! E cheio de “Quases”, esses indivíduos governados pelo Zé-Maneísmo dominante, dizendo que “ela tem uma voz maravilhosa”, e que o irmão “toca vários instrumentos”. Eu até entendo os adolescentes acéfalos que vão aos shows deles, mas porque uma pessoa iria ouvir a Sandy cantar Cole Porter ou o Junior tocar – ok, vá lá – rock and roll?

Ainda nem falei da Amsterdan… personagem interpretada com maestria (tinha um adjetivo menos óbvio não, blogueiro?) pela Fernanda D’Umbra, o grilo falante junkie dos playbas e patys, perguntando o que a diferenciava das outras. Ah, a Amsterdan chupa pintos pra conseguir drogas? As Patys também chupavam o Playba em troca de ecstasy. E ela ainda finaliza: “e vocês ainda tem dinheiro, nem precisam chupar o Espeto…” O que importa é saber reconhecer uma Amsterdan quando uma cruza o seu caminho. Escuta, cara. Vai doer, mas você precisa ouvir.

Termina a peça com o abraço mais foda que eu já testemunhei na vida, achei que ia chorar, as lágrimas estavam prontas pra vir à tona ao som rascante de Damien Rice, mas ao contrário disso, quando as luzes cirurgicamente comandadas pelo Fidalgo Poeta Marcelo Montenegro se acendem, eu abro um sorriso digno da peça com que acabei de ser presenteado, e assim a minha sexta-feira é coroada com o que há de melhor na Arte que eu gosto de apreciar.

Esse não é um texto de divulgação, nem é tudo o que eu tinha pra falar da peça, senta aí com uma cerveja pra gente esticar o assunto, vai?