Clichê n. 21 – Meu Livro Favorito

Eu conheci “O Apanhador no Campo de Centeio” através de “Feliz Ano Velho“, e isso não deixa de ser uma coincidência interessante. Porque um me influenciou como escritor, o outro, não. Na verdade, de uns tempos pra cá me bate um certo cagaço do Marcelo Rubens Paiva ler esse tipo de coisa e ficar puto, mas é isso aí. Eu li “Feliz Ano Velho” aos 13, e reli tantas vezes que, aos 20, resolvi começar a escrever.

“O Apanhador No Campo de Centeio” me influenciou como leitor. Eu o vi citado no “Feliz Ano Velho” e fui direto na biblioteca do meu pai procurar. Não tinha. E o mais estranho, meu pai não o tinha lido. Deu trabalho pra encontrar, percorri todos os sebos de Goiânia e nada. Um dia, o carinha de uma livraria encomendou pra mim e foi o primeiro livro que eu comecei a reler no exato momento em que terminei de ler. Eu tinha 18 anos e achava a minha vida uma merda! Foi perfeito!

Mas eu queria ler livros como aquele, e não achava nada nem parecido. E numa época pré internet, nem imagino como seria possível “pesquisar” sobre autores ou histórias similares. Tempos depois, agradeci o fato de Fante, Buskowski e Kerouac aparecerem bem depois na minha vida.

Nem me toquei que era o livro que o maluco que matou o John Lennon estava lendo. Tampouco saquei qual a possível conexão naquele filme do Mel Gibson. Não era ligado na “mística” do livro, nunca fui.

Na virada de 2002 pra 2003, eu reli pela putzgrilionésima vez e nem sei qual foi a contribuição pro meu surto no Retorno de Saturno, mas desde então, o livro me assusta um pouco. Vou reler.

Me incomodava bastante ver escrito, em mais de um lugar, por pessoas que não poderiam se dar ao luxo falar esse tipo de merda, que o Salinger ficou conhecido como o autor de um único livro, que fez imenso sucesso, e depois ficou recluso, sem nunca mais ter escrito nada. Li tudo o que pude dele, pelo menos do que foi traduzido aqui. Mas ainda acho que o melhor, disparado, é esse que conta a história do Holden Caufiled. Uma história engraçada a esse respeito é que, logo que comecei a namorar a Laura, encontrei na estante da mãe dela um livro do Salinger: “Uma Agulha No Palheiro”, fiquei loucão! E confesso, envergonhado, pois demorei pelo menos umas 20 páginas pra descobrir que era “O Apanhador No Campo de Centeio” com o título com que foi publicado em Portugal…

Me incomodou muito também o barulho que fez um livro que uma mulher lançou, meio que falando da vida dela com o Salinger… isso me mostrou uma certa sordidez no ser humano, de se interessar por algo tão bizarro assim, pois parecia meio óbvio que o Salinger havia sido bem escrotão com essa mina. E eu fico pensando no mó dos “so what” do mundo, pois quando ele morreu, eu vi um twitter de uma mina que disse que perdeu completamente o interesse no Salinger depois que leu o livro da tal Joice Maynard.

Como assim? O que seria “perder o interesse em Salinger”? Que tipo de interesse ela tinha (além do literário, ÓBVIO) e que acabou se perdendo só porque ele não era um maridão companheiro, a favor do diálogo e que ajudava a lavar a louça depois do jantar? Sei, levianérrimo esse meu comentário, até porque eu não sei absolutamente do que se trata no livro, do que ele de tão ruim fez pra mina que foi abandonada no campo de centeio, mas é que não consigo pensar em nada (ABSOLUTAMENTE NADA) que ele pudesse ter feito que me fizesse perder o interesse literário nele.

Mal comparando (muito mal comparando), eu perdi todo e qualquer interesse no Marcelo Camelo depois que ele cantou com a Sandy e a Ivete Sangalo. Faz sentido?

Fuck off!

Eu tinha tão pouco interesse no Salinger, que ao ler a notícia da morte dele, achei que ele já tinha morrido há tempos.

Ainda tenho esperança de que até o Duda chegar no Colegial, “O Apanhador No Campo de Centeio” vai fazer parte dos livros indicados pelos professores dele, ao invés de “Iracema”,  ou “Maíra”. Mas ainda que não seja, acho que ele vai ler de qualquer jeito, disso eu tenho certeza.

O Salinger escreveu o meu livro favorito. Porém, por mais contraditório que seja, eu nunca senti vontade de conversar com ele…

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2 Comentários on “Clichê n. 21 – Meu Livro Favorito”

  1. Xisto Ventura disse:

    Bem legal o texto, Randall.

    Eu sempre impliquei com a tendência que muitos têm de achar que seus ídolos, por serem bons e diferenciados em uma coisa específica, são também experts e sábios em qualquer outra esfera e brilhantes em todos os assuntos.

    Essa era uma tendência que eu via em alguns dos meus amigos que curtiam exclusivamente MPB. Eu identificava da devoção deles um tipo de presunção de sapiência: se o Caetano era capaz de compor boas músicas, então tinha legitimidade para dar pitaco em qualquer assunto, e a sua opinião então valia mais do que a de muita gente que realmente entendia da coisa.

    Eu sempre gostei de rock, mas a minha curiosidade pelas opiniões pessoais do Keith Richards, por exemplo, sempre foram circenses. E nunca gastei mais do que 5 minutos da minha atenção com as bandeiras que o Sting levantou ao longo de sua carreira.

    Eu tenho um amigo inglês que dizia que a característica do David Beckham que ele mais admirava, era a consciência que o tal jogador tinha sobre as suas limitações, principalmente em outras bandas que não o futebol. Ela dizia que era comum, quando ainda jogava pelo Manchester, o Beckham interromper educadamente alguma entrevista dizendo que era um reles jogador de futebol, e que se o entrevistador queria ouvir algo mais sofisticado ou uma opinião diferenciada sobre algum outro assunto, que fosse procurar quem entendesse do assunto.

    Também nunca gostei de um outro aspecto dessa idolatria exagerada, que ao contrário do outro, exige demais dos tais ídolos. É aquela obrigação que os fãs imputam aos tais coitados, no sentido de que, por serem bons em uma determinada coisa, sejam também verdadeiros santos e exemplos máximo de conduta.

    Não gosto disso. Para mim é importante que as pessoas tenham consciência de que o fato de um sujeito ser bom numa determinada coisa, não significa, até que se prove o contrário, que ele seja bom também em outra. Ou de que, o fato de um sujeito ser um escroto em vários aspectos de sua vida, não retira o valor e a importância de alguma obra ou de algum ato genial que elepossa ter praticado.

    Há que se ter senso-crítico. Sempre.

    Grande abraço.


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