Um Casamento em Kripton

No Sábado em que escrevo no Malvadezas, falei sobre o Natal e a Nicarágua, agora me ocorre falar de um casamento em Kripton… É que eu queria dizer algo como… estive em Kripton, quando fui a Goiânia em abril do ano passado, pro casamento do Pescoço, mas gostaria que isso saísse sem dar a mínima impressão de que eu me acho o Superman.  Porque foi como estar entre os meus, na minha terra, com gente igual a mim. Sim, reunião dos Acionistas Majoritários da Verdade, onde “a prosa dá liga”, como bem disse o Helinho no dia em que esteve entre a gente, num churrasco na casa do Rock and Roll, uma das últimas ocasiões em que vi o meu coroa feliz – e pensar que o abraço fraterno deles foi a última vez em que se viram… melhor assim, foi uma excelente despedida, quase um fim de tarde na casa do lago de Invasões Bárbaras.

A prosa dá liga por várias razões, quase todas elas maledicentes e carregadas de preconceitos; como quando estávamos num barzinho e chegou uma galera pra fazer “música ao vivo”, todos nos olhamos com o mesmo olhar. E o olhar evoluiu para um riso uniforme de sarcasmo quando os “músicos” iniciaram os trabalhos com Djavan. Ali, ninguém discorda que Djavan não dá, é o fim! Djavan é o máximo que a galera que ouve Sertanejo Universitário acha que consegue chegar em direção ao “bom gosto”. E num consenso turbulento e barulhento, chega-se à conclusão que, apesar de ser Djavan, “Fato Consumado” e “Flor de Lís” dá pra ouvir.

Sim, uma concessão ao Djavan, e olha que não somos de fazer concessões, tanto que ao falar que gostei da versão de “UP” dublada com o Chico Anysio, quase fui fuzilado com o argumento (que eu mesmo sustento) de que NÃO SE ASSISTE UM FILME DUBLADO E QUEM ASSISTE É IDIOTA. E pouco adiantou minha tentativa de apresentar uma atenuante, a de que o Duda adora o filme e – coitado – não entende inglês, parece que eu não entendi que não existem brechas legais para burlar essa lei de não se assistir um filme dublado.

Paulo Francis surge na pauta e provoca reações: gênio ou reaça, e suas mais improváveis variações, nunca indiferença. Ninguém ousa, ali entre os Ferreira, perguntar quem é Paulo Francis, porque a gente não perdoa, meu pai se referia às minhas namoradas como “aquela que achava que o Neruda era brasileiro”, ou “a que nunca tinha visto UM filme do Woody Allen” e assim por diante. Como bem definiu a Laura quando nos conheceu, somos um bando de loucos, onde 6 pessoas vociferam ao mesmo tempo, cada um com uma opinião diferente sobre a Guerra das Malvinas!!!!

Somos esse povo que o Google tá tornando obsoleto, pois hoje em dia, não precisam mais da gente pra saber quem fez o segundo gol da Holanda contra o Brasil em 74, ou qual atriz interpretou a Leila Diniz no filme biografia dela. Outro dia, nem acreditei quando o Giba me ligou querendo saber a capital da Bulgária! Com o Google, talvez a gente brigasse menos… mas acho que seria menos divertido. Ninguém fala de Big Brother, achei isso simplesmente impressionante! O Big Brother não existe ali! Na mesa do bar, ninguém fica constrangido de afirmar que não existe uma pessoa inteligente que goste de Ivete Sangalo – até porque, na NOSSA frente, ninguém tem coragem nem mesmo de afirmar que já ouviu Ivete Sangalo! Equivale a admitir que experimentou um prato de bosta e não é tão ruim assim…

No casamento, a Laura achou engraçado: nenhum dos padrinhos faz “em nome do pai”, ou reza o Pai Nosso, ou brinca com o padre daquele negócio que ele fala e a gente tem que repetir “bla bla bla no amor de cristo” ou “whatever who cares ele está no meio de nós”. A postura é de resistência solene, todo mundo levanta o braço direito pra sei lá o quê – quando eu disputava jogos era pra fazer o juramento do atleta -, mas a gente fica ali, firme, as mãos cruzadas em frente ao corpo. Sim, a verdadeira piece de resistance seria não ir na igreja, mas acho que faz parte da… molecagem? Não sei, a gente não regula muito bem da cabeça. Uns ateus, outros simplesmente de bom senso pra não dizer amém para a santa igreja católica. Também, não perdemos tempo falando mal da nobre instituição, pois assim como em O Poderoso Chefão, respeitamos a matriarca e só consideramos a hipótese de matar um irmão depois que ela se for. Mas todo mundo, cada um a seu modo, tem um pouco de certeza que ela não vai embora nunca, se Deus quiser.

No fim, é divertido pra cacete! Sei que tenho que podar minhas arestas e esconder meus espinhos na vida social, se não quiser ser banido de toda e qualquer roda, pois o mundo assiste Big Brother e ouve Ivete Sangalo e não há nada que se possa fazer a respeito. A Laura vive me perguntando porque eu ainda falo que todo mundo que ouve Ivete Sangalo é idiota, e eu digo: ainda sonho com o dia em que alguém vai me falar: “desculpa, Randall, mas eu ouço Ivete Sangalo e não sou idiota“. Isso nunca vai acontecer, as pessoas preferem ficar magoadinhas e dizer que “o Randall é foda”…

Foi bom estar em Kripton, Asgarth, Tatooine, Vulcano ou qualquer outra alegoria semelhante que signifique O LUGAR DE ONDE VOCÊ SAIU.

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5 Comentários on “Um Casamento em Kripton”

  1. Riccardo Joss disse:

    Quase estraguei o natal aqui comentando uma pessoa que defendia o ”sucesso” do Zorra Total.

  2. Helinho disse:

    Até pela minha idade já vivenciei praticamente todo esse ‘assunto’ que o Autor apropriadamente anotou.// Aquela tarde de quase invasões bárbaras está lá….///Oque eu acho o maior doido é a pessoa me indagar: Por quê vc não gosta de filme DUBLADO?????// O lance do ” em nome do Pai” me ocorre corriqueiramente, e depois, nem sei responder aquelas coisas.// Um lance complicado é este da vida social, com uma extensão complicadíssima para o lado profissional, é foda, atrapalha muito!// Mas, vou na valsa, e viva a resistencia…

  3. Helinho disse:

    Um assunto puxa outro: Vi uma conversa longa do Pacino, quase biográfica, após falar de tudo, comentou que apesar da filmografia extensa ele acha que o Godfather é que explica as coisas. Porém, com coração de fiador confessou ter uma ressalva sobre o filme; Disse que argumentou com diretor F. Ford C. que em uma familia católica e italiana, como a do filme, não cabia o assassinato de um irmão pelo outro. Foi voto vencido. Ele mantém a opinião, acha que foi um exagero, e que o filme não precisava daquilo.

  4. desculpa, Randall, mas eu ouço Ivete Sangalo e não sou idiota (Mentira!) tá bom na verdade mesmo eu tenho UMA musica dela que tem um ritmo legal pra correr e tô me sentindo bem idiota de tar falando isso aqui na internet. O que no fundo quer dizer q vc está certo! Todo mundo que escuta Ivete Sangalo é idiota!!!

    hahaha

    Acho q entendo um pouco esse clã, e imagino q deva ser beeeem divertido ser um de vcs!

    Adoro seus textos!!

    Feliz ano Novo!!!


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