Alta Fidelidade, Caralhonésima Releitura…

E mesmo com quase uma estante inteira de livros não lidos (número que cresce assustadoramente), peguei “Alta Fidelidade” para reler. No início, me deu um certo medo de não curtir, ou de notar que o Randall da primeira leitura, aquele que leu em um dia, num fôlego só, deixou de existir.

Mas o livro continua sendo o que foi pra mim quando caiu nas minhas mãos, um pouco por acaso, em 98.

Só é estranho perceber o abismo de distância entre o Randall de 25, morando em Goiânia e defendendo um salário pouco maior que um “mínimo”, apaixonadíssimo por uma menina de 19 anos que morava a mil quilômetros dele, e esse Randall aqui, 38 anos, defendendo não um salário, mas um projeto de vida, casado com a tal menina pela qual se apaixonara, pai de um filho e esperando outra…

Cara, aos 25 eu sequer imaginava como seria quando me aproximasse do universo do Rob Fleming, 35 e penabundeado (aos 25 eu também não conhecia Reinaldo Moraes… não sacou o link? É uma pena, mas você deveria ler um pouco mais). Hoje, aos 38, é meio assombroso, mas tenho plena convicção que se isso acontecesse, não me passaria pela cabeça pintar logotipos na parede da sala…

Minha genialidade, se puder chamá-la assim, é combinar toda essa carga de medianidade numa estrutura compacta única. Eu diria que há milhões de cara como eu, mas não há, na realidade: muitos caras tem um gosto musical impecável, mas não lêem, muitos caras lêem mais são gordos demais, muitos caras são simpáticos ao feminismo mas tem barbas idiotas, muitos caras tem um senso de humor como o do Woody Allen, mas se parecem com o Woody Allen. Muitos caras bebem demais, muitos caras se comportam de modo idiota ao dirigir um carro, muitos caras se metem em brigas, ou tomam drogas ou ostentam seu dinheiro. Eu não faço nenhuma dessas coisas, sério; se me dou bem com as mulheres, não é por causa das virtudes que tenho, mas por causa das sombras que não tenho.

Das “sombras” que o Rob se vangloria por não ter, nem isso eu posso me gabar, pois sou gordo e me comporto como verdadeiro imbecil ao volante.

Mas sei que outro dia estávamos comendo num restaurante alemão do Shopping e ela cumprimentou um carinha. Quem era? Um aluno dela… da pós! E novamente eu me lembro da menina de 19 anos que me apaixonou perdidamente e vejo a pessoa em que se tornou hoje. E por aí, sei que jamais serei acometido pelas agruras que tanto incomodavam Rob Fleming, pois eu havia realizado algo: a Laura! Por mais que pessoas reivindiquem láureas sobre a pessoa em que ela se tornou, eu sei qual é a parte que me cabe nesse latifúndio! Ela sabe. Ela sabe que eu sei que ela sabe. E assim sucessivamente.

Acho que agora eu entendo tudo, com relação aos meus pais, pois fui incapaz de dar a eles isso que a Laura me dá. Eu não passo nem perto de ser uma pessoa de quem eles olham e sentem que “o dever foi cumprido”. Que valeram a pena as noites em claro, as fraldas com bosta, as idas ao médico de madrugada (se bem que, conhecendo as peças, acho que essas idas foram raras, muitos “dorme que passa” devem ter rolado, e não estou reclamando, só pra constar nos autos e não me acusarem de indulgência em excesso)…

Quando eu e a Laura fomos pra São Paulo morar num apê em que o pai dela sentia falta de ar e não se cansava de repetir “não sei como vocês conseguem morar num apartamentico desse tamanho”, quando ela talvez se questionava se mandar os Sócios em Sorocaba enfiar a clínica no cu foi uma boa idéia enquanto pastava desempregada e desesperançada… hoje a história é totalmente outra! E eu sei o quanto contribuí pra isso. Não estou me vangloriando nem medindo méritos com ninguém, mas o que eu sinto quando vejo a Laura hoje, não tem dinheiro no mundo que pague!

Domingos de Oliveira como Cabral, explicando no início de “Separações” que amar é querer o bem DO OUTRO.

Quando Laura ouve os acordes iniciais, ela gira nos calcanhares e sorri e joga os polegares pra cima várias vezes, e eu começo a montar na minha cabeça uma fita pra ela, algo que esteja cheio de coisas que ela já ouviu e cheio de coisas que ela vá tocar. Hoje à noite, pela primeira vez na vida, eu meio que vejo como é que dá pra fazer isso.”

Com o final da história eu me dou por satisfeito!

Shattered dreams, worthless years,
Here am I encased inside a hollow shell,
Life began, then was done,
Now I stare into a cold and empty well

The many sounds that meet our ears
the sights our eyes behold,
Will open up our merging hearts,
And feed our empty souls

I believe when I fall in love with you it will be forever,
I believe when I fall in love this time it will be forever

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Meu Filho Vai Ter um Kichute?

Óbvio que li “Meninos de Kichute“, do Márcio Américo e veio a tona a lembrança dos meus kichutes. Não sei quantos eu tive, mas lembro de uma festa de aniversário em que a minha mãe me pôs uma roupinha toda frique-frique, com sapatinho de bacana e tudo, mas foi só ganhar um kichute do Penha e eu quis colocar na mesma hora! Tá vendo, Laura? Vem de longe minha inadequação entre roupas e calçados. Naquela noite minha mãe venceu, mas eu dormi calçado com ele!

Nas propagandas de Kichute, os moleques faziam altos golaços, eram todos craques, e toda vez que eu calçava o meu, com o cadarço amarrado na sola entre os cravos, descia de elevador até o subsolo, pra poder subir de escada até à portaria como se estivesse saindo do vestiário do Serra Dourada, abria a porta que dava pro térreo e soltava um “uaaaaaaaaahhhhh!” que normalmente assustava as pessoas, menos o porteiro, já acostumado.

Meu prédio ficava no limite da fronteira do Setor Universitário com o bairro que deu origem ao nome daquele time cujo nome não se pronuncia, coincidentemente, o mesmo nome do Bairro do livro do Márcio Américo. Em Goiânia, era um Bairro de “Classe Pobre Alta”, onde meu pai comprou um apartamento pra eu e minha mãe morar (ela mora lá até hoje), e durante muito tempo, vivi como o “riquinho” da rua, que estudava em colégio particular, ia de transporte escolar, fazia judô e inglês, tinha caixa de lápis de cor com 24 cores (embora não usasse nem 3)…

Eu era, como o próprio Marcelo Rubens Paiva disse em “Feliz Ano Velho”, nascido do lado de cá dos trilhos, e uma das primeiras evidências que tive da existência do lado de lá dos trilhos e de outras diferenças entre eu e meus amigos do bairro foi numa festinha, dessas em que os meninos levavam o refrigerante e as meninas os salgadinhos, e eram organizadas sem motivo aparente, a não ser tocar música lenta e torcer praquela menina aceitar seu pedido pra dançar. No meu caso, isso era raro, e quando a acontecia, minha desastrosa performance na pista, mesmo no prosaico “dois prá lá, dois pra cá”, eliminava minhas poucas chances de sucesso. Acabei criando um “tipo”, o cara que não gosta de dançar, que acha música lenta uma coisa chata e assim por diante. E nessa festa, notei que um de nossos amigos estava de Kichute. Calça, camiseta e Kichute. Como parecia novo, o pessoal foi pisar em cima naquelas de “batizar” o tênis do cara, mas ele explicou que o tênis não era zerado, era o Kichute dele “de sair”. Ainda bem que foi outro, não eu, que desprezou o bom senso e disse pro carinha que “Kichute não era tênis de sair”.

Dois dos meus amigos dessa época morreram em divergências conceituais com a polícia.

Se eu fosse escrever um livro, acho que o título mais apropriado pra retratar a minha realidade pequeno burguesinha seria “Meninos de All Star”, apesar da mão de obra que foi pra eu adquirir um desses, contra os protestos ideológicos do meu pai face essa forma de dominação americana.

Mas eu tive meus dias de Kichute ali no Setor Universitário e cercanias, roubando manga, jogando bola no asfalto e em campinho de terra, e brigando na rua com a turma de outro bairro. Não dá pra dizer que morro de saudades, até porque havia uma série de circunstâncias que me faziam desejar todos os dias me mudar dali, mas pelo menos o livro do Márcio Américo me fez lembrar do lado bom daquilo tudo, um passado que antecedeu esse presente onde somos “Homens de Sapato e Gravata”. Pelo bem geral de todos, alguns conseguiram não se transformar nisso, e escrevem livros bacanas como esse do Márcio Américo.


O pai e o “paiaço”…

A discussão era sempre a mesma. Eu queria esse quadro, ele não queria me dar. Era o quadro favorito dele, e talvez por isso (ou muito em função disso), tornou-se o meu também. E sei que era muito injusto que no ocaso da sua vida, tendo lá uma existência bem fodida, eu quisesse lhe “tomar” aquele quadro, que, a despeito de seu modo franciscano de encarar a vida, havia sido preservado. Mas a minha intenção passava longe de tripudiar, e quando tentei explicar, vi que só sairia com esse quadro da casa dele por cima do cadáver dele…

– Pai, eu quero lembrar de você sempre que olhar pro quadro!

– Vai tomá bãin na soda, sô, que vai lembrar de mim vendo quadro de paiaço, os ôto vão pensar que eu era paiaço!

Gozado que quem lê assim, pensa que se tratava de alguém iletrado, mas morar em Goiás tem dessas coisas, a pessoa pode ser extremamente culta e ainda assim, falar como o Chico Bento. Mas em 19 de agosto de 2009, saí da casa humilde dele na Avenida B com o tal “quadro de palhaço”. Que hoje, oficialmente, foi pendurado na parede do meu novo local de trabalho. E sim, a sensação é de estar na companhia dele…

O que eu cheguei a achar que fosse ruim, em função de muitos quebra paus e escrotidão mútua em nosso relacionamento, mas já faz tempo que, no balanço de perdas e danos, já cheguei à simples conclusão que fomos péssimos um pro outro, mas ainda assim, eu fui um filho pior do que ele foi pai. Nada disso muda bosta nenhuma, mas acaba que eu fico olhando esse quadro e lembrando do Coroa, mas não das nossas brigas horrendas nem das vezes em que ele me acordava pra conversar e o assunto invariavelmente chegava em “você nunca vai ser nada na vida seu Bosta, porque na sua idade eu já era (aqui variava o que ele já era na idade em que rolava o fascinante discurso de Fidel)”. Juro, consigo não pensar nisso e até acho que existia um certo lirismo no fato dele me acordar 3 da manhã pra ver o ovo que acabara de fritar e tinha ficado perfeito, daí o assunto já descambava pra Nero Wolfe e a profecia com um “seu bosta” no meio…

Gosto de lembrar de algumas passagens dele em alguns momentos em que eu precisava tomar decisões:

–> Vestibular:

Eu não sabia pra que ia prestar. Sério, não tinha a menor ideia. E no 3 Ano do Objetivo, havia uma divisão entre Humanas, Exatas e Biológicas. Claro, eu tinha pavor de química e biologia, a decisão mais sensata era ir pra turma de Humanas, mas o meu pai, ainda detentor de direitos de propriedade sobre mim, falou que se eu quisesse fazer qualquer outra coisa que não fosse Biológicas, eu poderia buscar um colégio da rede pública, pois ele só pagaria escola pra mim, se eu fosse pra Biológicas. Pelo simples fato de ser mais difícil e eu ter que me esforçar mais.

–> Resumo de Livro:

Um dia, ele me perguntou o que era uma apostila que estava no meio dos meus cadernos, escrito “Resumo de Livro”. Eu expliquei e acho que nunca o vi tão enfurecido. Não comigo, mas contra o… sei lá, o “sistema”, na falta de termo melhor. Ele achava, com alguma razão, que esse tipo de coisa simplesmente faria com que uma geração que não lia quase nada, lesse menos ainda. E rasgou todos os meus “resumos”, até o de “Maíra”, livro insuportável do Darcy Ribeiro que eu nunca consegui ir além da página 50.

–> Universidade Católica:

O raciocínio dele era cartesiano: “Se eu passei na Federal, por que vou pagar faculdade pra você, que teve condições ainda melhores que as minhas de entrar lá”? E hoje, devo dizer que ele estava certo. Certíssimo! Tanto que pagou, com certa relutância e justificada ira, meus dois primeiros anos, com duas interrupções no período. Depois, quebrou de vez e eu corri atrás da minha melhora, trabalhando num sub emprego idiota pra pagar a faculdade, mas acho que se ele tinha algum problema de consciência com relação a mim, esse aí de não ter pago a minha faculdade não o afligia, tanto que nem na minha formatura apareceu.

–> Ocasiões “Gelol”:

Sabe aquele pai que vai nos eventos esportivos do filho? Então, meu pai foi em uma competição de natação minha. E falou: “Você é muito ruim, nunca vai ganhar nada”, e não apareceu mais. Em alguns outros esportes, eu não era tão ruim, mas não sofria com a ausência dele. É que existia a chance de eu ganhar, mas também havia a possibilidade de perder, e nesse caso, a opinião dele, com a contundência costumeira, não seria muito bem vinda.

–> Exame da OAB I:

Uma das grandes vantagens de estudar na Católica é que eles tinham lá um estágio que te dispensava do Exame de Ordem. Que também não era lá muito difícil, mas era uma prova… só que NO ANO EM QUE ME FORMEI, mudaram a porra da Lei. Passou a ser obrigatório. Uma galera aí tava com papo de Mandado de Segurança, alegando que não podia mudar isso porque quem já estava matriculado tinha direito adquirido e tals, meu pai simplesmente falou que eu ia fazer a prova e pronto. Gozado, ele já não pagava mais a minha faculdade, nem com ele eu morava mais, e ainda assim, desencanei do Mandado de Segurança…

–> Exame da OAB II:

A Segunda Fase do Exame de Ordem divide-se em temas. E era meio notório que Penal e, sobretudo, Trabalhista, eram os mais fáceis. No meu caso, até por ter a ver com o que eu estava estagiando, escolher Trabalhista era algo lógico, coerente, razoável e aceitável. Menos pelo meu pai. Que disse que se eu não escolhesse Cível (a mais difícil), ele iria pra sempre me achar um bosta. E aqui, a culpa não era dele! Nossa relação já era totalmente independente, eu poderia muito bem cagar e andar pra opinião dele – e na verdade, não estou bem certo se a opinião dele nesse sentido mudou alguma coisa em virtude de eu ter passado -, eu não teria grana pra outro exame se tomasse pau, mas fui lá e fiz a prova de Cível. Pra minha sorte, caiu “Apelação” e eu passei. E ele não foi lá na OAB na pomposa cerimônia de entrega da carteirinha…

Acho que no fim, essas coisas, dentre muitas outras, demonstram um monte de situações em que ele esteve ali, sendo pai. Do seu jeito meio becão de fazenda, mas ainda assim, um pai, como poucos tiveram. E aqui, nesse novo recomeço, nesse escritório maravilhoso cheio de muitas possibilidades, trabalhando com um grande bróder, sinto sua presença com esse quadro de frente pra mim, esse palhaço triste e muito bem pintado, esse retrato da nossa relação, que nunca foi das melhores, mas que hoje ainda faz muita falta.

Feliz cumpleaños, biejo!


Los Hermanos é Foda!

Outro dia, me perguntaram se eu gosto de MPB. Olha só que arapuca, porque é de uma amplidão tamanha, que se você diz que gosta, amanhã a pessoa tá ouvindo Ana Carolina do seu lado e achando que você tá amarradão. Ou Marisa Monte, que é algo completamente obsoleto se você considerar que já existe a Elis Regina. Fico nessas duas, pois acho que todos os desdobramentos pseudo-descolados de cantoras nacionais de lá pra cá resultaram de aliementar uma dessas duas depois da meia noite.

Então eu prefiro dizer que não gosto de MPB, pois, ainda que não seja totalmente verdade, deixo de correr o risco de ouvir uma canção bonita, falando da vida em ré maior. E aí, quando a pessoa pergunta “mas você não gosta de NADA de MPB”?, eu posso responder que do Chico Buarque eu gosto.

– E do Caetano?

Antes que eu possa pensar em responder, já vejo o queixo tremendo e ouço nas profundezas do meu ser “eeeeeeta eta eta eta é a luz é o sol é o cu de tieta eta eta etaaaaa”. Pra nem entrar no mérito do índio que desce de uma estrela cólórida e brilhante, numa velocidade estonteante. Então, não gosto do Caetano. Nada? “O Quereres” é bem legal, “Sampa” é lindíssima, “Vaca Profana” é divertida, enfim, ele tem umas músicas bacanas, mas não gosto dele. Acho que o Caetano é a versão do meu pai para a MPB. Explico: meu pai teve amigos. Não muitos, não por muito tempo. Com o tempo, eles foram ficando pelo caminho e eu duvido que alguém achasse meu pai um cara LEGAL. Ou bacana. Agradável. Mas fazia um cassoulet do caralho, uma bacalhoada inacreditável, uma feijoada divina, uma rabada indescritível, uma língua ao molho madeira… enfim! Acho que se alguém perguntasse “Você gosta do Randall”, provavelmente a resposta seria algo como:

– Faz um cassoulet do caralho!

Dito isso, penso em adquirir o quanto antes pendores culinários, mas que fique claro, MPB é uma bosta, salva o Chico. Nem venha me falar em Gil querendo juntar via internet, um bando de tietes de conéquiticáti.

Mas pior ainda que MPB, é Los Hermanos. Porque assim, quem me conhece, sabe o quanto eu gostei dessa banda, principalmente no segundo e terceiro discos, mas não me faço de rogado e assumo que acho “Anna Julia” uma música bem bacana. Só que não consigo assumir, HOJE, que gosto de Los Hermanos. E na verdade, odeio Los Hermanos, dentre outras coisas, por me fazer concordar com o Chorão, que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos 5 caras mais babacas do mundo. Só que aí vai o Chorão, enfia a mão na cara do Camelo e eu acho que fez o certo. Independente do motivo!

Tergiverso: o André, parceiro do Malvadezas, diz que mede o quanto odeia uma banda/música se, ao ver o clipe, sente vontade de dar porrada nos caras. E, ao ver o clipe da Banda Mais Bonita da Cidade, sentiu vontade de entrar com uma motosserra naquela casa! Então, eu acho que se tem um cara feito pra tomar murro na cara, é o Marcelo Camelo! O cara cantou com a Sandy e com a Ivete Sangalo! Justificou que cantou com a Sandy porque não comia palmito porque nunca tinha comido e quando comeu, descobriu que gosta de palmito! É SÉRIO! Se um cara desses não tem que passar por um open bar de murro na cara, quem deve?

Se você gosta de Los Hermanos, você canta “Sentimental” de olhos fechados. Não adianta você dizer que gosta de Los Hermanos, porém, tá com as prestações do senso do ridículo em dia e ele não foi cortado, é dizer isso e a pessoa achar que você canta “Sentimental” de olhos fechados, sentindo a música. Foi o que me disse um amigo, fã da Star Trek, ao ir numa convenção e ver as pessoas usando roupinha do Capitão Kirk e Orelha do Spock. Ele, no caso, não usava. Mas tinha certeza que ao falar pras pessoas que tinha ido na convenção, elas o imaginavam usando esse adereço.

Por isso, não uso as Orelhas do Spock pelo Los Hermanos, prefiro enfiar a mão na cara do Camelo! Ainda que isso me faça parecer um fã do Charlie Brown…


Quarta e Domingo, Quarta e Domingo…

Um assunto sempre incômodo na minha relação com a Laura era esse meu interesse quase psicótico por futebol. Não que eu seja aquele tipo que assiste qualquer coisa, de desafio ao galo a final de Copa do Mundo, mas assisto mais do que a média normal. Até porque, o brasileiro médio que diz gostar de futebol normalmente assiste jogos do seu time se o seu time estiver numa fase muito boa! Eu não. Campeonato Brasileiro, assisto tudo. Copa do Brasil, quase tudo. Libertadores, desde que tenha um brasileiro em campo ou os estrangeiros sejam muito bons. Campeonato Espanhol, só Barcelona x Real Madrid. Italiano, nem sob tortura. Inglês, curto, bastante. Champions League, da fase de mata-mata em diante. Copa América, vejo sim. Eurocopa, sem dúvida, acho um barato! Copa do Mundo, tudo o que for possível!

Aí a Laura vivia enchendo o saco. Primeiro, porque só tinha uma TV em casa, depois, mesmo tendo duas TVs, só uma tinha Net ou similar; aí, mesmo tendo Net ou similar nas duas TVs, era a falta de companhia, até que o Duda nasceu, e chegamos a um acordo: às quartas e domingos, eu paro o que quer que eu estiver fazendo, e vou assistir um jogo de futebol. Antigamente, quando o Duda exigia 100% de atenção, era meio tenso, hoje, a coisa se estabilizou e pode ocorrer, muitas vezes, de eu assistir ao jogo com o Duda do meu lado – que ainda não adquiriu gosto pela coisa, situação que eu aguardo ansiosamente para anexar territórios como a quinta e o sábado -, e ontem, como tem sido há um bom tempo, o Duda ficou com ela no quarto enquanto eu via o último jogo do ano na TV às quartas feiras.

Isso deveria ser simbólico, eu curto muito esse MEU momento. Gosto do jogo acabando perto de meia noite, depois uma checadinha nos e-mails, talvez escrever um texto, ver a repercussão no Twitter, passar rapidinho no Xvídeos e ir pra cama. Gosto muito mais dos jogos de Quarta Feira do que aos domingos. Quando acaba o jogo de domingo eu nunca curto. Fica meio vazio. É muito tempo de espera até a vida voltar a acontecer de novo, na quarta feira dá menos tempo pra pensar.

Daí que ontem me aprontaram provavelmente a PIOR quarta feira de futebol do ano! Quer dizer, o Palmeiras deve ter aprontado alguma, mas nenhuma pior que a de ontem! Não, eu não queria que o Palmeiras entregasse, sou totalmente contra isso, mas também não queria que ganhasse ou empatasse. Estava bom demais da conta aquela situação de vitória do Vasco e empate do Corinthians, dois pontos de diferença, uma próxima rodada teta pros dois times, ou seja, tudo a ser decidido no último jogo, um Corinthians x Palmeiras de arrepiar! E se o Palmeiras tem medo do rebaixamento, que jogasse a vida nessa última partida contra o Corinthians! Eu até acho que o Vasco vai seguir sua sina/tendência de perder pro Flamengo e ser vice, mas eu queria que fosse na última rodada! Quer dizer, poderia até rolar do Vasco perder pro Flamengo (que é o que vai acontecer, fatalmente!) e o Palmeiras aprontar pra cima do Corinthians, imagina que tesão!

Mas não, o campeonato terminou ontem. Até porque, do jeito que estava, Flamengo ou Figueirense poderiam dar uma chegada pra tumultuar, agora nem isso. É bem provável que o Figueirense perca hoje pro Flamengo e entre no ritmo “fiz muito mais que a minha obrigação” até o fim do torneio. Ou que ganhe do Flamengo e dê-se por tão satisfeito que entregue a rapadura pro Corinthians por “salto alto”. Quer dizer, pode acontecer um monte de coisa, mas no final, o Corinthians foi campeão e encerrou o campeonato ontem. Diga-se de passagem, com uma contribuição inestimável do Fluminense, incapaz de ganhar do América-MG no sábado…

E eu até acho que pode surgir um papinho de que com o Corinthians campeão, perde o futebol, com esse treineiro que tira atacante pra botar volante, mas vai perguntar pros italianos se algum deles concorda com essa conversinha fiada em relação a 82! Vai saber deles, se de alguma forma se ressentem do fato de não jogarem bonito. Aliás, esse papo de jogar bonito, NA REAL, só existe na cabeça de alguns sãopaulinos nefelibatas que acham que o time com Dinho, Pintado, Ronaldão, Marcos Adriano, Cafu, Leonardo, Empadinha E MULLER jogava bonito por causa do Telê. O Corinthians vai ser campeão sem merecer? Nossa, eu acho que estão realmente preocupadíssimos com isso! Vai ser o campeão do torneio com pior nível técnico da história? Olha, a final de 91 entre Bragantino x São Paulo foi de arder as vistas…

A única coisa que realmente importa, é a estrela na camisa, de preferência sem asterisco, como foi em 2005 – mas mesmo ali, ninguém dá muita importância a não ser os colorados, que precisam de severo tratamento psiquiátrico e drágeas poderosas pra superar esse fato.

Ao fim e ao cabo, já vai tarde 2011, agora resta torcer pelo Santos contra o Barcelona e eu acho que dá. Mas isso é assunto pra outro post…


E o Leão, vejam vocês, é que tá certo!

Foi com muita tristeza que li uma entrevista do Leão não sei onde, outro dia, pois de tudo o que ele falou, concordei com mais ou menos 87%, e isso é horrível, se você considerar que o Leão é aquela sua tia velha que fala com saudade dos tempos da ditadura, onde tinha ordem nas ruas, a USP não era lugar de maconheiro e a Rota fazia seu serviço na rua, deixando a cidade livre para o cidadão de bem sair com a sua família. Normalmente, eu não respeito quem usa a expressão “cidadão de bem”, pois no meu Dicionário Imaginário de Tipinhos, o “Cidadão de Bem” normalmente é alguém que fode os seus empregados ao limite da indignidade, dentre outras coisas, mas não limitados a estacionar em vaga de deficiente só 5 minutinhos e quetais.

Enfim, o Leão foi lá e meteu a boca nesses jogadores metidos a pop star, em jogador fanático religioso que erra pênalti e diz que foi a vontade de Deus, em jogador que não presta, em empresário de jogador, enfim, falou tanta coisa que precisa ser dita e ninguém diz, que foi foda! Porque concordar com o Leão é, em última análise, algum dia concordar com a sua tia velha que quer a Rota na Rua.

A contratação do Leão para o São Paulo é a perfeita representação da Rota na Rua em sua versão futebolística. E o próprio atestado de incompetência dos dirigentes em gerir as pessoas, funciona exatamente como os pais que matriculavam seus filhos num cursinho dirigido por um nazista em Goiânia, que levava a questão dos limites de vestibulando de Medicina às raias da imprudência, aplicando técnicas como ir para a porta de barzinhos e shows caçar alunos, além de ligar, aleatoriamente, para a casa de alguns alunos e, se eles atendessem, isso significava que não estavam estudando, e sim, prestando atenção ao telefone. E o que ele fazia quando flagrava alguém em uma festa, num boteco, num show, num jogo de futebol ou com o rosto queimado de sol na segunda feira? Você acha que rolava um discurso, uma humilhação, um bla bla bla qualquer? Não, isso os pais incompetentes daqueles adolescentes já se encarregavam de fazer. Ele simplesmente expulsava a pessoa, sumariamente, e usava isso como PROPAGANDA. Sim, lá no Cursinho do Rubão era legal porque se você não agisse estritamente de acordo com as regras dele, ele te expulsava! E aí, ele esfregava na cara da sociedade número como 102 aprovados dentre 110 vagas de Medicina e ninguém argumentava muito…

Isso é o Leão. Linha Dura! Vai botar os caras na linha… mas será que eu tou muito errado ao achar que quem tirou os caras da linha foram exatamente os dirigentes lenientes do São Paulo? Porque se o Leão é linha dura, o Muricy não me parece ser um anjo de candura, e o cara vinha de ganhar 3 Brasileiros em sequência, algo que NINGUÉM antes tinha conseguido fazer no Brasil. “Ah, mas perdeu Libertadores” e isso é papo de torcedor! De imbeciloide de arquibancada, se o dirigente realmente levou isso a sério, merece surra de gato morto (aquela modalidade em que o cara só para de apanhar quando o gato miar)! Eu acho que tiraram o Muricy porque a República Rogériocenista estava de saco cheio de… trabalhar! Trabalhar duro, de verdade, igual gente grande! Sendo cobrados quando os resultados não vinham e – como é praxe dos linha duras – sentindo que não fizeram mais que a obrigação quando ganhavam algo. Penso que os jogadores se encheram, começaram as picuinhas, os caras deram uma fritada em óleo fervente no Muricy, a catrevagem de Rogério Ceni & Milton Cruz tem muito trânsito na diretoria, mandaram o cara embora!

Sim, foi um erro, mas contrataram o Ricardo Gomes, que vinha fazendo um ótimo trabalho. Mas o Ricardo precisa de gente decente pra trabalhar. Quer dizer, até suporta um elemento como o Diego Souza, mas a estrutura, tem que ser de gente a fim de trampo. O que não parecia o caso no São Paulo, onde ele quase ganhou um Brasileirão e chegou à semifinal de Libertadores, ou seja, evoluiu em termos do que o Muricy conseguia. Foi mandado embora. E aí, eu acho que a coisa desandou, porque a mensagem pro bando de jogadores foi clara: “Vocês que mandam”. No caso, acho que são “eles” e o Milton Cruz, uma espécie de sindicalista pelego da pior espécie. E aí, deitaram e rolaram com Carpegiane e Adílson Batista, esse último então, eu imagino que dava preleção e perguntava se o Rogério Ceni estava de acordo, quando o goleiro-artilheiro pedia para o técnico se retirar dois minutinhos pra ele levar uma palavra a sós com o grupo.

Agora, com o Leão, o JJ tentou mudar o tom da conversa, como que dizendo um “chega”, mas será que vai funcionar? Quer dizer, o Leão pode até classificar o time pra Libertadores e fazer os caras renderem um pouco mais, enquadrar um ou outro vagabundo, mas não se dará por satisfeito. Como disse o Douglas do Impedimento, ele não vai sossegar enquanto não mandar o Rogério Ceni molhar a grama do CT, aí ele vai “perder o vestiário”, expressão muito babaca que anda em voga hoje em dia pra justificar o emprego de certos repórteres que se acham bróderes de jogadores… o certo, infelizmente, seria perder o vestiário de vez! Infelizmente, mas olha, INFELIZMENTE MESMO, estou quase chegando à triste conclusão que o Vanderlei Luxemburgo estava certo quando botou os pés no Corinthians e “descontinuou o trabalho” do Ronaldo, goleiro que estava há quase 10 anos no clube, formado na base e a tal “Liderança no Elenco”. O Leão tentou fazer isso no Goiás, enquadrando aquela desgraça do Harlei, e a Diretoria tanto tentou bancar o cara, que o time foi parar na Série B. Ele não vai resistir, vai “mexer” com o Rogério Ceni mais dia, menos dia, e aí…

E aí que o Palmeiras tinha que olhar pra isso que acontece do outro lado do muro, e se inspirar. Pois se o Leão é considerado Linha Dura, o seu oposto é o Tite, todo cheio de gestão de pessoas e achando que todo mundo é bacana, só precisa da conversa certa na hora certa. No meio do caminho, temos o Felipão, que não é linha dura no sentido de ficar tentando enquadrar os outros, simplesmente desiste do cara. Felipão que, a despeito de toda a minha admiração por ele, está agindo errado no Palmeiras, pois ganhando o que ganha, tem que dar resultado. E se o que lhe oferecem não é o suficiente, que peça pra sair. Não dá pra Vampetar, fingir que treina, enquanto o time finge que joga e vai saber se a Diretoria também não finge que paga, né? Pois se o Kléber diz que 80% dos jogadores do Palmeiras não gostam do Felipão, acho muito provável que sejam os 80% que eu não gosto de ver usando a camisa do Palmeiras! Manda embora! Passa no DP, marca homologação no Sindicato, saca o FGTS e dá entrada no Seguro Desemprego!

O que não dá é pra ficar nessa punheta de canhota com o dedão destroncado, com o Ceará ou algum repórter praticante do Jornalismo Wando, a dizer que o Felipão perdeu o vestiário, dando a entender que algum outro técnico, com essa cambada de vagabundos que estão hoje no Palmeiras, resolveriam! E quando eu digo que não dá, o meu recado é também pro Felipão, pois a ele cabe reconhecer que desse jeito, não dá pra trabalhar, que é o nome dele, a carreira dele, que tá sob análise dos mais variados beócios que tomam de assalto a crônica esportiva, e o chamam de ultrapassado, velho, dentre outras coisas. Eu não acho nada disso, mas acho que ele tá equivocado, e precisa se mandar do Palmeiras, o quanto antes. Ou então promover uma faxina como a Janete Clair fazia nas novelas dela, a começar por esses 80% que não gostam dele!

E sigo torcendo para o Vasco ganhar esse brasileiro, pela mesma razão que torci pro Flamengo em 2009: é uma forma das pessoas perceberem que a importância do técnico é superestimada, e qualquer um, com o papinho certo na hora certa, consegue ser campeão brasileiro!


El Che

 

Essa camiseta do “che” que o Duda ganhou da minha tia é coberta de simbolismo pra mim. No caso da minha tia, porque ela reagiu de forma bem humorada a um arroubo de “tiraondismo” precoce da minha parte, quando aos 14 anos, frequentando uma mesa de bar dos amigos do meu pai (que à época, era assessor parlamentar de um Deputado Estadual do PC do B que não poderia ser PC do B então era meio que PSDB por ser a opção mais à esquerda possível, oh well, whatever, nevermind), acabei dizendo que o meu grande ídolo era o Che. No caso, o Guevara. O que era uma deslavada mentira, pois aos 14 anos, em 87, nenhum outro ser humano poderia ser considerado o meu ídolo além do Zico, mas enfim, eu tinha acabado de ver um filme meia boca com o Omar Shariff fazendo o papel do Che, ouvia meu pai falando desse cara o tempo todo, resolvi que ele era massa e assim foi…

Quer dizer, assim seria, se uma das pessoas presentes à mesa não fosse jornalista e, comentando na redação do Popular com algumas colegas, descobriu que uma moça estava fazendo uma reportagem tipo “Os ídolos da juventude” e essa moça achou o máximo que alguém tivesse o Che Guevara como ídolo. Conclusão, essa porra saiu no jornal, meu avô não achou nem um pouco bacana (mas comprou uma dúzia de jornais pra mostrar pros outros), mas a minha mãe mandou essa matéria pras pessoas da minha família daqui de São Paulo. Sei lá, o lance pitoresco talvez fosse apenas e tão somente pelo fato de um moleque de 14 anos ter como ídolo um revolucionário argentino ao invés do Chaves, só que a minha tia achou isso tão bacana, que quando uma amiga dela foi pra Cuba, lembrou que ela tinha um sobrinho que era fã do Che e trouxe um diário do che na Bolívia, ou seja, quero chegar no seguinte: isso era assunto! De alguma forma, a minha tia falava bem de mim pra alguém, a ponto dessa pessoa querer comprar um livro desses, enfim, 23 anos depois, a minha tia comprou essa camiseta pro Duda, que tem um desenho do che numa versão infantil.

Significa?

Nada, até porque, a história do “che” envolvendo a minha família que eu mais gosto de contar é a de quando o Jânio Quadros foi condecorar o cara, e o meu avô, UDN pra caralho, ocupava o cargo de Presidente da Novacap, o equivalente a Governador de Brasília, e ia nessa cerimônia. E, a despeito de todas as desavenças ideológicas com o filho mais velho que achava massa ser comunista, um dia entrou em casa e disse:

– Amanhã você não vai à aula, vai almoçar com o Che Guevara!

E meu pai adorava exibir uma certa vitória simbólica sobre a minha vó, quando perguntava a ela quem era o homem mais bonito que ela já vira, sabendo que a resposta era “aquele comunista do che Ghevara”.

Pro Duda, porém, Che significa outra coisa, completamente diferente. Che, pra ele, é um cachorro. O cachorro do Giba, companheiro de tardes que viram noite ao som de blues e com gosto de amêndoa origininalizada (ou talvez original amendoada, quem sabe), daqueles cachorros que a gente olha e não fala que é bonitinho, fofinho ou coisa do gênero. A gente olha e fala “puta cachorro gente fina”! E num dia frio em que, depois de muito tempo eu voltava à casa do Giba, talvez a minha primeira vez sozinho com o Duda sem a mãe, ele resolveu cair na piscina e brincar com a boca do Che. Que respondeu apenas mexendo o focinho, de tão gente boa que é, mas o Duda, em conduta tão temerária, estava tão perto da boca dele, que o dente o arranhou no rosto. Medo, pânico… não do que aconteceu com o Duda, pois foi só um arranhão, mas do tanto que a Laura iria me encher o saco.

Mas isso acabou sendo algo interessante, pois o normal seria que o Duda tivesse um certo trauma com cachorros, de forma geral, ou do Che, em particular. Nada disso! Quando eu disse que a Tia Sônia tinha dado uma camiseta do Che pra ele, achou estranho não ser um cachorro. E toda vez que falamos em ir à casa do Tio Giba, ele pergunta se o Che vai estar lá, não com medo, mas com expectativa do amigo com quem vai brincar. E ele brinca. Faz carinho, “conversa” e tudo. E eles parecem ter uma conexão, mais ou menos como o Brad Pitt e o urso dele em “Lendas da Paixão”. Ah, você acha esse filme cafona? Beleza, eu gosto dessa analogia do Duda com o seu urso, El Che!

E quando um cachorro simplesmente sublima um cara como o Che Guevara, me parece óbvio que não estamos diante de um cachorro qualquer…