The Stone Roses, Parte V

V

Se eu não estiver muito enganado, faz uns dois meses que alguém teve uma idéia estúpida de fazer uma “Festa Anos 80”. Eu digo estúpida porque me lembro de quando eu era moleque e rolava alguma festa “Anos 60”, aquilo me parecia ter rolado há muito tempo, provavelmente entre dinossauros e cavaleiros em reluzentes armaduras. E aí me pegam desprevenido com essa coisa temática e revival disso e daquilo, no final das contas decidiram que, como eu era um cara relativamente interessado por música, seria o DJ da festa.

Passei uma semana elaborando a set list, tomando um cuidado quase matemático ao encaixar o B’52 logo depois do Billy Idol, mas fui negativamente surpreendido com um desdém da audiência, que praticamente não compreendeu “Wave Of Mutilation” dos Pixies depois de “In Between Days”. Eles estavam esperando coisas bizarras dos Anos 80, como Balão Mágico, Bozo, Sidney Magal, todas aquelas bandas que cantavam musiquinhas de Ursinho Blau Blau, e o que é pior: eu tinha, aos olhos deles, a pinta de quem ia tocar essas músicas! “Ai de mim, ai”, diria o cara do Ursinho Blau Blau, mas antes de renunciar à função, pus “She Bangs The Drums” pra tocar, o que deixou a pista deserta, claro, mas pelo menos eu ouvi uma música boa pela última vez na noite.

Ela veio falar comigo:

– Essa música é boa.

– Eu sei. Mas o que vem na seqüência é “o horror, o horror”!

– De quem é?

– A citação? Marlon Brando em Apocalypse Now.

– Não, quem canta aquela música.

– The Stone Roses, uma banda do final dos anos 80, da cena de Manchester. Pra te falar a verdade, o primeiro disco deles é o melhor disco de todos os tempos!

– Nossa, é verdade? Como é mesmo o nome da banda?

– The Stone Roses!

– Nunca ouvi falar…

– Você gosta de rock?

– Eu prefiro Beethoven.

Eu preferi ir embora. E nem deixei pra ela um olhar 43, aquele assim, meio de lado, conforme o Paulo Ricardo cantava nas caixas de som da festa e eu preferia não ter sido lembrado de certas coisas que foram cometidas sob o questionável rótulo de Rock Nacional.

Lembrei de tudo isso no meio de uma noite de insônia, assistindo Rocky I na Globo, dublado. Stone Roses, Strokes… ela lembrou do que conversamos na festa, o gesto dela ao me trazer aquele presente se tornava cada dia mais interessante.

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Até que enfim, um jogo decente!

Veja bem o que eu disse: decente! Se você é fã ardoroso do futebol-arte, futebol-moleque, futebol-Kichute-amarrado-na-canela, não é disso que eu tou falando. E aqui vai um bom conselho, que lhe dou de graça: esquece. Desencana. Nunca mais acontecer. Aliás, até acho que você mesmo nunca viu esse tal futebol-arte, nem era nascido, então pra quê, né?

O que eu quero dizer é que ontem, o jogo serviu pra alguma coisa. E quando digo isso, me lembro de um amistosos pega nada do catch nothing na época do Felipão em que ele conseguiu, ali, pinçar Gilberto Silva e Kléberson, tão importantes para o Penta. Ontem, ficou muito claro que gente como o Lucas e o Cortês muito provavelmente farão parte do time que vai seguir até 2014, pois graças ao Lucas e o Cortês, o time jogou bem. Só isso? Olha, sendo bem simplista, acho que sim, mas se você estiver afinzão de falar que o Mano consertou o time, vou te lembrar que não foi outra pessoa que escalou Kléber e Renato Abreu na outra partida!

E aí, eu inevitavelmente, penso no que o Mano anda fazendo da vida, pois escalar Renato Abreu no lugar do Lucas e o Kléber no lugar do Cortês é coisa de gente incompetente ou que tá levando algum. As duas alternativas são horríveis. Bom, o Brasil já tem um reserva pro Marcelo, e se você considerar que o Marcelo é um jogador chegado num cartão vermelho, é de se considerar a possibilidade do cara que saiu do cruzamento entre o Louco da Turma da Mônica com o Gullit disputar uma Copa do Mundo.

E o Lucas? Bom, eu já disse que escalaria ele dum lado, de Villa, e o Neymar do outro, de Pedro, com o Ganso chegando de Messi. Mas como o Ganso se tornou uma incógnita, a coisa parece ir caindo no colo do JogaBonito Gaúcho, mas alguém mais ficou a impressão de que o Diego Souza deu uma melhorada no time? Porque se isso realmente aconteceu, a coisa preocupa, de verdade!

De resto, foi um jogo de onde se aproveita alguma coisa, e o com isso, o Mano ganhou mais uns dois ou três jogos pra não ganhar de ninguém e jogar contra ninguém, o que acaba dando na mesma.


1977

Porque 1977? Porque eu descobri que é a data mais legal para se analisar o Futebol Goiano, sob um aspecto mais amplo, e chegar à conclusão apocalíptica sobre o Goiás Esporte Clube, coisa que já venho falando há mais de um ano. Pra encurtar a conversa, eu acho que o Goiás vai acabar e você pode estar me achando um doido varrido, por isso a gente precisa voltar a 1977! Mais precisamente, às vésperas de começar o campeonato goiano de 77…

Quem apostaria no campeão de 77? Será que o Goiás, bi em 75 e 76, único campeão no gramado do Serra Dourada, conseguiria o tão sonhado Tri, que o seu arqui rival Vila Nova se orgulhava tanto em possuir? E já que falamos nesses dois times, convém te informar que nessa época, ambos com 5 títulos, eram os times da Capital que menos vezes haviam vencido o campeonato. Até o Atlético, simpático time do bairro de Campinas, tinha mais títulos que os dois, totalizando 7. Mas nenhum dos 3 parecia arranhar a supremacia do Todo Poderoso Goiânia, o Galo: 14 títulos, o único Penta Campeão do estado, time da Elite! O Goiânia, campeão goiano de 1974, não poderia ser considerado carta fora do baralho naquela disputa de título. Ou você cravaria que o Goiânia não ganharia, em hipótese alguma, o título de 77? Você teria coragem de dizer que o Goiânia nunca mais seria campeão goiano? Ou ainda, que o time iria acabar?

Vamos avançar, agora terminou o campeonato goiano de 1980 e sabe o que aconteceu? O Vila ganhou. Não apenas do de 1980, mas todos desde que a gente tocou no assunto pela última vez. Ganhou em 77, 78, 79 e, inacreditavelmente, o de 80, tornando-se Tetra! Ou “tréta” no vernáculo particular de quem torce pra esse time. Que era um timaço naquela época, um verdadeiro esquadrão, com nomes como Roberto Oliveira, Luiz Dário, Timoura, Cândido, Modesto e Danival. Sem falar no Serginho, goleiro deles que além de tudo, atravessava o campo pra bater os pênaltis do outro lado. O Vila era verdadeiramente arrasador, talvez com um futuro promissor pela frente, correto? Ou você seria maluco a ponto de imaginar que 7 anos depois, fariam algo minimamente semelhante a uma Primeira Divisão do Futebol Brasileiro e o Vila, justo o Vila, melhor time do futebol goiano jamais colocaria os pés lá?

Agora o salto no tempo foi maior, estamos em 2006 e o Goiás vai jogar as Oitavas de Final. Não do Campeonato Goiano, nem da Copa do Brasil, muito menos do Brasileiro, que desde 2002 vem sendo jogado em sistema de pontos corridos. O Goiás está nas Oitavas de Final da Libertadores da América!!!! Joga logo mais contra o Estudiantes, time histórico que foi campeão do mundo em cima do Man United da Santíssima Trindade de Best-Law-Charlton! E só precisa ganhar de 2 gols de diferença, o que não aconteceu e acabamos ficando pelo meio do caminho, mas olha, Libertadores!!!! De 87 pra cá, em quase 20 anos, fizemos boas campanhas, beliscamos um vice na Copa do Brasil e só duas vezes ficamos de fora da Primeira Divisão, mas parece que a gente aprendeu a lição e nunca mais vamos cair pra Série B…

O Goiás não aprendeu a lição. E digo mais: nunca soube que havia uma lição a ser aprendida, ou uma missão a ser cumprida. Comportando-se como um herdeiro novo rico, arrogante e pernóstico, cometendo erro atrás de erro sem se dar conta das consequências, e as consequências são essas aí que a gente está vendo. O que poderia acontecer ainda ao Goiás? Bom, se o Goiânia acabou, se o Dragão esteve muito perto de acabar algumas vezes, e se o Vila jamais conseguiu cruzar as frágeis fronteiras do futebol goiano, eu acho perfeitamente plausível que o Goiás acabe. Não no ano que vem, claro, mas talvez não sobreviva até o fim da década.

Por quê?

Bom, já ouvi diversas vezes que a Lei Pelé e demais consequências prejudicaram e muito o Goiás. E eu acho que concordo. Mas se foi isso, ainda que o grande beneficiado com a novidade legal tenha sido a figura do empresário/agente dos jogadores, posso dizer que o Goiás mereceu. Sim, mereceu! Porque o Goiás, via Hailé Pinheiro, sempre teve uma postura quase escravocrata com os seus jogadores-patrimônio. Não por outra razão, não há um jogador oriundo do Goiás, de Luvanor a Fernandão, passando por Túlio e Zé Teodoro, que guarde carinho ou saudade do Goiás. Voltam, por força das circunstâncias, mas nunca se derretem pelo clube ou mesmo demonstram alguma gratidão. A mão de ferro do sinhozinho Hailé proporcionou momentos grandiosos, mas vejo o Goiás hoje como uma fazenda de café ou engenho de cana que não conseguiu se adaptar ao fim da escravatura e quebrou, ficou entregue às ruínas.

Existe algo a ser feito? Honestamente, não consigo imaginar em nada que possa ser implantado no feudo dos Pinheiro, que não seja uma profissionalização completa, com alguém gerindo o clube sem paixão e interesses escusos, ou seja a possibilidade é tão remota quanto o pneumotórax, por isso, estou há tanto tempo anunciando o tango argentino.


The Stone Roses, Parte IV

IV

O meu casamento durou 15 anos. Não sei medir essas coisas em outras unidades, ou como Brás Cubas que mediu o amor de sua Marcela em 15 meses e 11 contos de réis. Não tenho esse cinismo todo, mesmo assim sou o tipo de cético que acredita que o amor nada tem a ver com o casamento.

Me casei aos 18, antes dos 20 eu tinha um filho, e basta dizer que eu nunca consegui terminar “On The Road” – na verdade, acho que demorou pra que eu pegasse um livro, e quando isso aconteceu, decidi que estava velho demais pra Kerouac.

Naquela época, não me lembro exatamente qual, eu simplesmente estava velho demais.

Minha condição de membro vitalício do clubinho da Classe Média Média ajudou a sustentar esse casamento, comecei a trabalhar na Agência de Publicidade do meu pai e consegui sedimentar minha “carreira” ali dentro, exercendo o cargo de Filho do Dono sem deixar a menor dúvida sobre a minha posição.

Depois de 15 anos, o casamento acabou, como eu disse. Quer dizer, a gente se separou, pois eu não sei precisar quando o casamento acabou, pra isso eu devia ser daquele tipo que acredita em amor e outras filigranas.

Tudo foi resolvido por um amigo advogado e não foi preciso mais que três folhas e uma tarde aborrecida no Fórum de Pinheiros pra que eu voltasse a ser solteiro. O Juiz explicou qualquer coisa sobre o prazo caso um de nós resolvesse contrair novo matrimônio e eu gostei do verbo empregado, “contrair”, dava exatamente a idéia correta na minha cabeça.

Porém, a menção a isso me parecia tão absurda quanto sugerir a alguém que acabou de se curar de um câncer, que ele deve mastigar uma cápsula de Césio 137. Na verdade, a idéia é absurda por si só, e dependendo da idade do interlocutor, nem deve saber o que é Césio 137 – a não ser que seja de Goiânia, hipótese também muito pouco provável, mas eu conheço um cara de lá, pode ser que ele curta a piada.

Enfim, mesmo que a parte burocrática não tenha sido um horror, eu não escapei ao momento tétrico de buscar as minhas coisas. Entrar na minha casa que não era mais a minha casa. Quase toquei a campainha, mas usei a minha cópia da chave pela última vez e dei sorte de não ter ninguém em casa. Peguei as minhas roupas, um quadro de palhaço que meu pai tinha me dado, e a garrafa de Jack Daniels que estava no bar, algo me dizia que eu precisar daquela companhia. Tínhamos poucos livros em casa, mas eu resolvi deixar na esperança que o meu filho lesse, assim como deixei a mesa de botão, imaginando que ele iria esperar ansiosamente pelos dias de visita pra jogar comigo. Eu não tinha discos. E o meu filho tinha quase a minha idade quando eu me casei.

Ele também gostava de Stone Roses. Mas preferia The Smiths. Eu me lembrava das letras dos Smiths, era tudo o que eu não precisava ouvir naquele estado de espírito. Em meio aos devaneios, acabei encontrando o meu aparelho 3 x 1, que por algum apego espiritual escapou do lixo ou do ferro velho. Resolvi levar, como se aquele aparelho pudesse me ajudar a resgatar minha essência perdida, aquele cara que curtia rock and roll e sonhava viajar pela Rota 66 de carona! Procurei o exemplar de “On The Road”, mas acabei roubando a edição de bolso do meu filho, e assim saí de casa, definitivamente, pensando em instalar meu velho som na nova quitinete e ouvir aquele disco dos Stone Roses, o primeirão, o das laranjas…

Mas é claro que eu não tinha mais esse disco! Eu não tinha nenhum vinil, mas ainda que tivesse, a agulha do toca-discos não funcionava! E assim, fiquei adiando o dia em que iria até a Santa Efigênia num sábado procurar a agulha, aproveitar pra tentar garimpar uns discos legais num sebo, mas esse dia nunca aconteceu. Devo dizer que devolvi o Kerouac pro meu filho sem nem abrir, e quando percebi, era um cara que acordava às 7 da manhã no domingo, porque o ponto alto da semana era o futebolzinho no clube às oito e meia, com uma cervejinha careta que emendava num almoço besta e aí era tudo uma imensa segunda-feira de novo.


É jogo duro!

Eu não sei realmente o que os corintianos estavam esperando, mas eu tinha absoluta certeza que seria um jogo duríssimo, carne de pescoço mesmo esse contra o Bahia, mesmo desfalcado de 7. Porque, assim como foi o jogo do Flamengo contra o América-MG, é daqueles que você entra com obrigação de fazer 1×0 antes mesmo da bola rolar, se isso fosse possível. Contra o São Paulo, 3 dias antes, é permitido se retrancar, jogar a bola pro mato, bater, ninguém faz drama. Mas aí, você pega pela frente o Bahia e a coisa muda, você precisa ser o melhor do mundo contra a pior desgraça do universo, tudo isso num intervalo muito pequeno, e aí eu me pergunto: tem mesmo que ser assim? Quer dizer, porque não jogar do mesmo jeito, independente do adversário? Sei lá, a chance de ganhar não aumenta? Bobagem, retórica…

E aí, mais um fator que faz com que jogos como esse sejam ruins: você ganha, apertado, jogando mal, e mesmo assim, fica parecendo que tá tudo bem. Como foi o Flamengo contra o América ontem e o Palmeiras contra o Ceará na quinta. Hoje em dia, os times parece que não vem atropelando mais. Quer dizer, de vez em quando até surgem as goleadas, mas fica claro que se trata de algo esporádico e quase acidental. E aí, Corinthians ganhou do Bahia, Flamengo do América, e Tite e Luxemburgo ganham sobrevida. Isso é bom pra quem?

Aí, no meio do Botafogo x São Paulo, um pouco antes de decidir que aquele era o tipo de jogo que o Botafogo cede o empate no final, fiquei pensando porque não aparece um Cortez no Palmeiras. Ou porque ao invés de um Gioino, Ortigoza, a gente não acerta a mão num Loco Abreu. Não quis aprofundar o lance do Maicossuel porque esse até passou por lá e aí a gente já sabe. Não é possível que seja só azar! Não consigo acreditar que forças ocultas façam essas coisas com o Palmeiras… hoje, era nítido ver o Felipão pedindo pro time ir pra frente e os caras de sacanagem. A mesma sacanagem que vi Diego Souza, Vágner Love, Cleiton Xavier e Obina fazendo com o Muricy em 2009. Será que é só no Palmeiras que rola isso? E aí, vão demitir o Felipão? Sério mesmo que eles acham que é isso o que resolve? Ou que melhora alguma coisa?

Sofrimento a parte, Botafogo x São Paulo foi um jogão. Mas eu não consigo entender o Adílson Batista. Aliás, toda vez que falam que um técnico mexeu muito bem e CONSERTOU o time, eu tendo a imaginar porque caralhos ele não saiu com a formação CONSERTADA desde o início. O Rivaldo não tem condição física? Isso signigica que vai sair de maca, sem condições de se locomover, né? Porque meramente “cansado” ele é muito melhor do que qualquer um. E eu ando achando que o Lucas é mais um “geração Telê”, daqueles jogadorzinhos que o São Paulo revelava e duravam 8 meses: Macedo, Catê, Elivélton, Pavão, Caio Boy, Jamelli e outros tantos. Se não vender na próxima janela, daqui uns 5 anos tá jogando o varzeano daqui de Sorocaba, pode escrever!

Mas e o Vasco? Será? Não, tem o Diego Souza ali, não é possível! Nada com o Diego Souza pode dar certo, mas se ele se machucar, sei não, eles podem ter chance! Principalmente se ganhar do Corinthians no domingo, onde o Timão estará liberado de novo pra jogar como time pequeno, espanando, retrancado…


The Stone Roses, Parte III

III

– Passa a bola para César Sampaio que conduz pela meia-cancha, lança Evair… que devolve de primeira para Edmundo em condições de arrematar e é pro gol!

– Vai ser sempre assim? Eu já não te pedi milhões de vezes pra você não “narrar”?

– Isso é descontrole emocional do adversário, que vê a derrota iminente, arruma o goleiro logo!

– Pode bater…

– Na traaaaaaaave!

– Eu descobri que o 9 na Seleção de 82 não era o Reinaldo.

– E daí? O goleiro também não era o Leão, o Falcão não era 5 e o Paulo Isidoro ficou na reserva… eu adaptei. Não sou burro como o Telê.

– Despeito…

– Bate logo o tiro de meta!

– Ah, sei lá… eu não tenho identificação com esses times… o Palmeiras de 93 contra o Brasil de 82? Quando eu vou poder jogar com o São Paulo de 92?

– Por cima do meu cadáver!

– Fascista! Pro gol.

– O quê? Com o Luizinho? Pode chutar!

– Mas então quer dizer que a mina te deu um DVD dos Strokes?

– Pois é… tomara que você goste.

– Eu dei uma olhada. É “material não autorizado”, deve ter coisa tipo “entrevista com o colega de classe do baixista” e por aí vai. Mas deve valer uma grana pra quem é fã de verdade. Posso fazer um rolo na Galeria do Rock.

– Não sei… e se ela aparecer em casa e quiser ver o DVD?

– Ta com planos dela ir parar na sua casa, é?

– Ué, sei lá. Falta! Falta perigosa na intermediária, se prepara Roberto Carlos para batê-la!

– Já tava na hora, né pai?

– De bater a falta?

– De levar uma mina no apartamento, pô! Ainda mais uma que dá DVDs de rock alternativo… deve ser interessante!

– Não do jeito que você pensa, aposto que ela nunca mais chegou perto de um All Star depois que os Anos 80 acabaram. É advogada. Séria. E toca num quinteto de jazz e bossa nova.

– Uau! “She Bangs The Drums”?

– Não, toca sax. O resto do quinteto são uns tiozinhos meio engraçados.

– Tiozinhos? Devem ser da sua idade, mais ou menos?

– Ta engraçadinho, hoje… sua mãe já descobriu que você é gay?

– Piadinha sexista, agora?

– Piadinha com a sua mãe, não com a sua orientação sexual, você sabe que eu não tenho o menor problema com isso. Apesar de achar que tenho culpa…

– Culpa?

– É, de permitir que você fosse tanto no Morumbi com aquele menino do 402, virou sãopaulino e o resto é conseqüência.

– Você vai a alguma festa à fantasia vestido de reaça depois que sair daqui, é?

– Não funcionou a piada, né?

– Muitas vezes eu preferia que você fosse um pai normal, sabe? Cabelo ficando branco, conversa pouco com os filhos, usa gravata, cochila vendo o Jornal Nacional e preferia morrer a ter um filho viado.

– Sua mãe é quase uma versão feminina disso… e daqui uns dias vai ficar perguntando quando vai conhecer uma namorada sua…

– Ela já faz isso!

– E depois vai querer saber quando você vai dar um netinho pra ela… abre o jogo, é melhor. Certeza que você não quer que eu converse com ela?

– Vou dar alguns sinais… acho que vou pendurar aquele seu pôster do Morrisey no meu quarto, por exemplo.

– Eu nunca tive um pôster do Morrisey!

– Teve sim! Aposto que teve! Mas no seu caso não pega nada! Agora, se EU tiver um pôster do Morrisey no quarto, é veadagem! Mas é verdade, você não teve pôster do Morrisey, teve um cabelo igual o dele!

– Igual ao do George Michael!

– Ah bom, melhorou… Pro gol, pai, Éder na meia distância é caixa, arruma o goleiro só por formalidade, vai! Mas e aí, qual vai ser a da Advogada Saxofonista? Vai levar ela pro seu Bunker ou não? Gooooooooool!


The Stone Roses, II

II

Eu tinha 18 anos e me preparava para o vestibular, como todo mundo um dia fez. Adolescente clássico, cheio de neuras, de dúvidas e medos. Eu tinha uma namorada, um campo de futebol de botão oficial, um irmão mais novo insuportável e uma razoável coleção de discos, que era alimentada em doses homeopáticas, com a tradicional ajuda do dinheiro do lanche economizado pra poder ir até o Mappin escolher dentre tantos qual voltaria pra casa com a gente. E num desses dias foi o Stone Roses, recomendado por um amigo que conhecia um cara que tinha umas revistas gringas e meio que sabia de tudo antes, e se sentia todo orgulhoso de ter esse “poder”.

Eu tinha um toca-discos, um modesto 3 x 1 da Gradiente, que ficava no meu quarto, guardando uma distância segura do potente equipamento de som do meu pai, que ficava embutido na parede e chamava atenção de todo mundo que vinha em casa. Mas eu não cobiçava o som do meu pai, dava-me por muito satisfeito com o meu sonzinho no quarto, a minha privacidade, a liberdade de aumentar uns decibéis a mais, principalmente a tarde, com o apartamento todo pra mim…

Tirei o “The Smiths” quase eternizado na bandeja e fiquei pensando se o aparelho não estranharia tocar um disco que não começasse com “Reel Around The Fountain”, mas me atirei no chão com as luzes apagadas, tudo seguindo o mesmo ritual, era a maneira como eu gostava de ouvir música desde os 15 anos, e assim eu adiava o momento de começar a estudar de verdade.

E a música começou meio lenta, lenta demais; parecia mais um barulho do que música propriamente dita. Fiquei tentando identificar com o quê aquilo parecia… eu costumava me apaixonar por um disco ou uma banda no primeiro minuto da primeira música, mas aquilo estava me intrigando, simplesmente. Aí de repente, “TUM-TUM”, duas porradas secas na bateria, quase um despertador pra que eu parasse de tentar descobrir com o quê aquilo parecia e procurasse escutar, simplesmente escutar!

Me levantei do chão e fui até o toca-discos pra voltar a agulha até o início da faixa, eu queria ouvir aquele comecinho de novo! Mas não adiantava, eu só sentia que a música começava depois daqueles dois estrondos da bateria, era como se aquilo inaugurasse uma fase em alguma coisa na minha vida. “TUM-TUM”! Aí vinha o melhor, a música propriamente dita, uma voz meio sussurrada e um refrão que, apesar de interminável, me fez perceber que eu simplesmente não voltara para o chão, pela primeira vez em muito tempo eu não fiquei ouvindo uma música e olhando pro teto. “I wanna be adored”…

E depois vinha uma seqüência matadora, três músicas maravilhosas em seguida, e a primeira delas, em seus acordes iniciais, me levou a seguinte conclusão: “Preciso comprar um baixo!”. E se eu fiquei em pé na primeira música, nessa trinca eu simplesmente dancei pelo quarto, SOZINHO! Na falta de coreografia e/ou prática, tentei imitar os passos da Molly Ringwald em “Clube dos Cinco”, mas tudo não passava de mexer o corpo desordenadamente e chutar o ar mais ou menos no ritmo.

Ao fim desses 10 minutos, nos acordes finais de “Waterfall”, eu estava exausto, mas voltei ao aparelho e voltei a agulha para o início, eu queria de novo sentir aquele “TUM-TUM” de “I Wanna Be Adored”, o air bass de “She Bangs The Drums”, o barulhinho de “Elephant Stone” e a cadência de “Waterfall”.  Ao todo, isso não dava nem 17 minutos, mas eram os melhores 17 minutos da minha vida! Com o tempo, e a devida utilização das substâncias corretas, eu aprendi a curtir também não só as outras duas músicas que fechavam o Lado A (“Don´t Stop” e “Bye Bye Badman”), mas também as duas que finalizavam o Lado B.

Porém, tudo o que o disco representou pra mim tem a ver com as quatro músicas iniciais.

Tanto que nem me lembro muito bem do Lado B, que também é genial, tem “Made Of Stone” e tudo, mas agora só me vem á memória aquelas duas músicas gigantes no final, e eu nem sempre tinha paciência pra essas músicas gigantes – até porque, não fazia o meu gênero chapar de ácido no tapete do quarto em plena quarta-feira de tarde. Mesmo assim, esse disco ficou na bandeja por tanto tempo que eu nem sei se acabou grudando… porque eu não sei direito o que aconteceu depois desse tempo em que eu ouvia o disco do Stone Roses sem parar. Eu sei que estava terminando de ler “On The Road”, estudava descrente pro vestibular de publicidade, muito mais preocupado em programar uma viagem de carona que culminasse em São Luís do Maranhão, do que com a nota de corte da FUVEST.

Ian Brown e Kerouac eram as vozes na minha cabeça no ano em que a minha namorada engravidou e tudo o que eu planejei para a minha vida teve que ser revisto, pois eu ia casar e ser pai de família. Aos 18 anos!