Inglaterra

As coisas eram bem mais simples na década de 1960, período em que comecei a me interessar por futebol. A Inglaterra acabara de ganhar o título mundial em 1966 e, logo, inquestionavelmente, representava a melhor seleção do mundo: fato, ponto final, fim de papo. É bem verdade que o gol da vitória não deveria ter sido contado; é também verdade que os brasileiros e o Pelé levaram uma surra trás da outra naquele campeonato, ao ponto de Pelé sair do campo numa maca depois na enésima falta brutal. Mas mesmo assim. Os melhores! Provavelmente! E tornou-se óbvio que éramos a segunda melhor equipe em 1970, embora tenhamos que ser um pouco criativos com a evidência. Sim, a Inglaterra levou uma surra nas quartas-de-final. Mas realmente não deveria – a seleção tinha marcado 2X0 contra os alemães, faltando vinte minutos para o fim de jogo, e conseguiu perder a partida por 3X2. A melhor seleção de 1970 era, de longe, a brasileira, mas os caras só nos venceram na terceira rodada do primeiro turno, por 1X0. E Jef Astle perdeu a chance de fazer um supergol no final, de forma que o placar era pra ter sido 1X1. O Brasil deu um banho de bola em todo mundo. Assim, só para revisar: a Inglaterra era de longe a melhor equipe em 1966 e praticamente a melhor – vamos dar um critério aos brasileiros e estabelecer um par de igualdade – em 1970.

E, então, tudo deu errado, quase para sempre. Para inicio de conversa, eu cresci e a questão do significado de pertencer a um país ficou muito confusa. Além disso, o futebol da Inglaterra estava uma droga. (Talvez eu nem tivesse tantas dúvidas em relação à nacionalidade e ao patriotismo se os caras soubessem jogar direito.) O “igualmente melhor” time do mundo nem chegou a se classificar para as copas de 1974 e 1978; os jogadores de categoria internacional com os quais tínhamos sido abençoados na década de 1960 desapareceram e, nos dez anos seguintes, toda essa questão de patriotismo e futebol ficara muito mais complicada. Em minha memória, agora vejo que os jogos da Inglaterra durante aquela década eram assistidos apenas através de uma nuvem de gás lacrimogêneo usado pela polícia européia para dispersar nossos hooligans arruaceiros. Os torcedores da Inglaterra estavam rapidamente se tornando uma turma muito sinistra e, embora nossos jogos de clube fossem com freqüência amaldiçoados por arruaças e desordens, nunca parecia que os vândalos estivessem dando o tom das coisas. Se fôssemos assistir à Inglaterra jogar em Wembley, como eu fazia de vez em quando, podíamos observar as pessoas ao redor prestando a continência nazista durante o hino nacional e era muito comum escutarmos ofensas dirigidas aos negros – inclusive àqueles que estavam jogando para a própria Inglaterra.

Naquela época, o estádio de Wembley comportava 92 mil pessoas; havia (e ainda há) pelo menos 92 clubes profissionais de futebol da Inglaterra. Às vezes, parecia até os mil piores cafajestes que torciam para cada um dos clubes da liga se reuniam no estádio para fazer barulho e cantar canções anti-IRA. Foram essas pessoas que ajudaram a criar o medo e o ódio comuns de nossas duas bandeiras nacionais. Quando alguém vinha na sua direção vestindo uma camiseta com a cruz de São Jorge ou a bandeira da Inglaterra estampada, era aconselhável que atravessasse para o outro lado da rua. A camiseta era uma alternativa gráfica para um slogan que provavelmente dizia alguma coisa do tipo “sou racista, mas odeio você não importa qual seja sua cor”- ou, como dizia uma pichação registrada pela fotógrafa Zoe Strauss, da Filadélfia: VÁ SE FODER SE ESTIVER LENDO ISSO. Se o cara não te atacasse, o pitt-bull fazia isso por ele.

Assim, talvez até de maneira compreensível, alguns torcedores começaram a se sentir um pouco confusos com relação à seleção inglesa. Em 1990, quando a Inglaterra jogou com Camarões nas quartas-de-final, era muito comum encontrarem-se pessoas na Inglaterra – de classe média, liberais, admito, mas, ainda assim, pessoas – torcendo pelos Camarões. Assisti àquele jogo acompanhado de algumas dessas pessoas e, quando o placar marcou 2X1 a favor dos Camarões, elas vibraram. (A Inglaterra acabou ganhando por 3X2.) Eu compreendi a razão, mas não consegui vibrar com elas, o que me surpreendeu. Aqueles homens violentos, bêbados, racistas, vestindo as cores da bandeira… Mas, no fundo, eles eram compatriotas, não (como eu anteriormente pensara) as pessoas liberais gente boa com as quais eu estava assistindo ao jogo e a Inglaterra era a seleção do meu país. A questão é que não dá para escolher uma coisa dessas, certo? A Copa de 1990 acabou representando uma mudança decisiva. A equipe não estava fazendo vergonha – pelo menos depois dos jogos de estréia. Os torcedores também não, apesar dos confrontos esquisitos. E, no fim, a Inglaterra perdeu bravamente numa decisão acirrada para a Alemanha, nos pênaltis, nas semifinais. (A Inglaterra voltou para casa em quatro das últimas seis copas do mundo pelos alemães ou pela Argentina, dois países com os quais já tivemos problemas no passado. Aqueles familiarizados com a natureza belicosa dos nossos jornais sensacionalistas – os tablóides – podem imaginar que estes infortúnios não contribuíram em nada para a paz mundial.) Depois de duas décadas horrendas, a seleção e o jogo nacional reconquistaram o afeto do país.

O renascimento durou cerca de cinco minutos. Houve uma desastrosa indicação para técnico, que resultou em outra desclassificação. E, em 1998, o futebol estava muito diferente. A França levou a taça, mas apenas alguns jogadores da equipe jogavam na França. Seus homens-chave, Zidane, Desailly e Deschamps, jogavam na Itália; o resto jogava na Espanha, Inglaterra ou na Alemanha. Enquanto isso, os grandes astros do futebol inglês eram Zola da Itália, Bergkamp da Holanda, Schmeichel da Dinamarca. O Manchester United, o maior clube da Inglaterra, contratara jovens jogadores ingleses, incluindo David Beckham; mas o Arsenal, meu time, ganhara confortavelmente o campeonato com uma mistura de determinação inglesa e talento franco-holandês. Os jogadores estrangeiros eram, em sua maioria, melhores, tinham melhor condicionamento físico, seus passes custavam mais barato e eles não bebiam muito. (Gente como Bergkamp e o brilhante Thierry Henry claramente considera a abstinência como o preço que se deve ser pago por uma carreira de atleta, mas tal atitude era vista por muitos jogadores ingleses como algo semelhante à trapaça.) Em pouco tempo, a abstinência dos jogadores de nossa divisão de elite não era originalmente britânica.

A globalização do mercado de transferências de passes estava começando a descaracterizar o futebol em muitos aspectos. Antigamente, viam-se os melhores atletas jogando nos times e pensava-se: Como eles atuariam se jogassem juntos? E a resposta era que eles pareciam a equipe nacional – pelo menos era essa a idéia, mesmo que na verdade, a equipe nacional, sobretudo a seleção inglesa, nunca contasse com técnico qualificado e os jogadores formassem um bando de atletas fora de forma. Agora, Chelsea, Manchester United, Real Madrid, Juventus, Milan e Barcelona transformaram as equipes nacionais em times de fantasia. Se a sua seleção não possuir em sua composição jogadores desses clubes, é porque tais clubes não os querem, o que significa que a sua seleção não é boa. Nos últimos anos, a Inglaterra chegou a se limitar, em algumas ocasiões, a escolher jogadores que não fossem os favoritos na escolha dos clubes, uma indicação de como tudo mudou. Antigamente, um jogador de futebol de classe internacional teria sido o primeiro na escalação de qualquer clube. Agora, isso depende – da qualidade do clube e da qualidade do país.

Não resta dúvida, entretanto, que os importados estrangeiros arrastaram a nata dos jogadores ingleses, algumas vezes de forma relutante, em direção a algo próximo à competência. Éramos muito toscos e limitados (e aqui estou me referindo a todos os habitantes do país); não tínhamos que nos preocupar muito com outros países, pois, de qualquer forma, só jogávamos contra eles de dois em dois anos mesmo. Agora os atletas ingleses jogam contra os melhores do mundo toda semana e tiveram que aprender muito rapidamente para permanecer no jogo e na profissão. Até mesmo as pessoas lúcidas e sãs estão começando a afirmar que a equipe da Inglaterra contém alguns dos melhores jogadores do mundo. Wayne Rooney era adolescente durante os campeonatos europeus de 2004, mas quando saiu de campo contundido no jogo contra Portugal, o time desmoronou. Ele é muito forte, extremamente habilidoso e a probabilidade de levar um cartão vermelho a qualquer hora, provavelmente pela boca suja, é tão grande quanto a de fazer um dos melhores gols que já se viu. (Num jogo contra o Arsenal na última temporada, estima-se que Rooney tenha mandando o árbitro se foder mais de vinte vezes em sessenta segundos. Como a “linguagem chula” garante cartão amarelo, pode-se imaginar que haja de fato palavrões muito mais cabeludos do que foda ou merda, que somente os jogadores de futebol conhecem.) Frank Lampard e John Terry são os jogadores mais importantes do Chelsea, o que, sob o presente clima econômico, significa que são dois dos jogadores mais importantes da Europa; se não fossem, a esta altura já teriam sido mandados para as minas de sal. Ashley Cole é talvez o melhor lateral esquerdo do mundo, o que significa que não jogará no meu time, o Arsenal, por muito mais tempo. Pelo menos metade dessa seleção inglesa é realmente boa, então, quando a equipe se ferrar nas quartas-de-final, como já é de praxe, haverá uma cólera idiota no lugar de uma resignação cansativa.

No final de sua inócua campanha de classificação para a Copa de 2006, a Inglaterra conseguiu perder de 1X0 para a Irlanda do Norte, cujos jogadores, em sua grande maioria, vêm dos menores times da Inglaterra. Durante o jogo, dava quase para ver os astros da Inglaterra pensando: “Que diabos estou fazendo aqui, jogando contra esses perdedores?” (O fato de os perdedores estarem ganhando parecia ter uma importância apenas secundária para eles.) Era difícil ver o ideal do futebol internacional durar todos os 90 minutos, que dirá até as finais da Copa e além. E, então, algumas poucas semanas depois, após uma insignificante, mas encantadora vitória sobre a Argentina, todos nós decidimos que a Inglaterra ganharia a Copa do Mundo. Isso representa um progresso sofrível: geralmente, a confiança nacional teria sido aumentada graças a uma vitória suada sobre os desamparados irlandeses e destruída por um time de verdade. Agora, temos um grupo de cosmopolitas chiques (ou primas-donas, dependendo de sua visão de mundo, idade e do jornal que você lê) que não podem ser incomodados, a menos que a ocasião se justifique.

Dezesseis anos atrás, a Inglaterra empatou com a Suécia num jogo sem gols, resultado que ajudou a garantir a classificação para a Copa do Mundo de 1990. A imagem que ficou daquele jogo é a do capitão inglês Terry Butcher todo enfaixado, com a camisa branca da Inglaterra e o short coberto de sangue que tinha jorrado incessantemente de uma ferida na cabeça durante o jogo.

– Fora de campo, sempre fui um cara comum, relativamente comportado – disse Butcher em uma entrevista um ano depois. – Mas me coloque numa camisa de futebol e o negócio vira um capacete de aço com baionetas. É a glória ou a morte.

Esta era a antiga Inglaterra: a imagem da guerra, o empate crucial de 0X0 contra os oponentes modestos, a inevitável substituição de estilo e talento por sangue e pedaços de carne. Aqueles que odeiam David Beckham, o atual capitão inglês, e tudo que ele representa afirmariam que ele usará um capacete de aço e faixas de gaze somente quando esses adereços se tornarem última moda em alguma boate ridícula da Europa. Não é justo, pois, apesar de seu visual e de sua grana, ele também tem se esforçado de forma surpreendente para compensar pelas coisas que lhe faltam como jogador, sobretudo o ritmo. Mas não há dúvidas de que ele ilustra perfeitamente um novo tipo de atleta inglês: profissional, preparado para a mídia, às vezes petulante e muito, muito rico. Os torcedores da Inglaterra que compareceram ao amistoso contra a Argentina (realizado, como é de costume, em Geneva, por motivos ainda obscuros) ainda estavam cantando sua canção No Surender to the IRA (não se rendam ao IRA), e existe mais do que uma desconfiança de que eles preferiam assistir a Terry Butcher e suas baionetas a David Beckham, um homem, que, afinal, já foi fotografado vestindo um sarongue. Mas aí o que temos no momento é uma Inglaterra completamente pirada. Ainda preferíamos estar bombardeando os alemães, só que depois de sessenta anos, vem se instalando lentamente uma desconfiança de que aqueles dias não voltarão tão cedo. E, enquanto isso, devemos confiar em rapazes bonitos, multimilionários que vestem sarongues para chutar os argentinos por nós. Não estamos felizes com isso, mas fazer o quê?

Para mim, o momento mais emocionante da copa de 1998 foi quando Vieira, do Arsenal, tocou a bola para Petit, do Arsenal, para o terceiro gol contra o Brasil na partida que garantiu a vitória da França na final, com um placar de 3X0. fiquei superemocionado. (Na manhã seguinte, o Daily Mirror, então editado por um torcedor fanático do Arsenal, estampava a manchete: ARSENAL VENCE A COPA DO MUNDO. Mandei emoldurar a página.) Este era definitivamente o meu povo: passo maior parte do ano odiando a maioria os jogadores ingleses e se algum daqueles filhos-da-puta do Manchester United ou do Chelsea estiver competindo diretamente contra os meus garotos lindos e talentosos da França, não serei misericordioso. No final das contas, não há como escolher essas coisas. Allez, les bleus.

Nick Hornby em texto para o livro “Guia Cult da Copa do Mundo”, 2006

Anúncios